Autora: Maria Amélia de Carvalho (Mel) Creative Commons License
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007
The end ...

 (foto da Net)

 ***

É verdade, este blog chegou ao fim. Encerrou-se um ciclo, uma vontade de continuar, uma propósito.

Menos conhecido que o meu blog "Noite de Mel", passaram contudo por aqui muitos amigos a quem estou grata pela permanência, pelos comentários, pelos incentivos.

Alguns deles há muito que deixaram de "anónimos/virtuais". São hoje em dia companheiros de escrita, amigos fraternos.

Como todos sabemos, a vida nem sempre nos possibilita manter e dar continuidade ao que começamos. É o caso!

Encerrar este espaço foi um decisão dificil de tomar, acreditem!

Continuo, contudo,  a esperar por quem me desejar ler e comentar, em

www.noitedemel.blogs.sapo.pt (poesia)

e

http://noitedemel.blogspot.com/ (prosa)

 

 para além de que, e como muitos saberão, escrevo em vários sites de escrita, para os quais vos convido igualmente:

 

www.escritartes.comwww.luso-poemas.net ...

 

Aproveito para vos anunciar que o meu livro "Sibilam pedras na encosta" se encontra à venda no site Luso-Poemas e nas livrarias da FNAC.

 

 

A todos o meu imenso obrigada.

Até sempre!

Maria Amélia de Carvalho (Mel)



publicado por Mel de Carvalho às 19:43
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
“Pássaros de Fogo”

Figurino de Léon Bakst para O Pássaro de Fogo, 1910.Do casulo Universal

nasceram túlipas abertas

envoltas em serpentes.

Híbridas, diferentes,

ergueram-se em abstractos

desenhando beijos e mimos no firmamento

em saltos supremos de trampolim.

 

Saltimbancos,

amortalharam a razão

no som estridente de um clarim

quando, cansados de si,

se metamorfosearam em sensibilidades

no clamor de um plasma e,

em leito atapetado d’erva ardente,

de pétalas rubras, suor e grossas lágrimas,

se amaram, perdidamente.

 

Dos subterrâneos da mais inútil solidão,

do casulo morno do relógio do tempo,

regressaram as raízes,

em meditação do fascínio ou do logro,

na amplitude d’asas de cetim,

ora amplas, abertas,

ora quietas, doloridas, amarguradas.

 

Na periferia da aurora boreal,

aqui e ali, no canto e na água,

os sons erguem-se e ecoam, dulcíssimos,

cristalinos,

assinalando um lugar secreto e clandestino,

e os voos são  um jogo de “Pássaros de Fogo”*

***

(Imagem da net)
* L'Oiseau de feu,  (O) Pássaro de Fogo; é um ballet de Igor Stravinsky de 1910 baseado nos contos populares russos sobre o pássaro mágico brilhante que é tanto uma bênção como uma perdição para o seu captor. http://pt.wikipedia.org
 
 
 


publicado por Mel de Carvalho às 13:18
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Sábado, 29 de Setembro de 2007
Não existem palavras

Underwater Flower

 

(Autor da foto : Graça Loureiro)

 

****

 Não existem palavras
quando a linguagem é muda
e apenas a voz da alma fala, melódica,
sustenida, em conchas esvaziadas.

Então, no ventre dos tempos, meu amado,
avançamos livres,
avançamos nus,
desbravando os medos do corpo, um a um,
em acordes vibrantes de fogo
num plano fumegante de lava e luz,
em vibrados de Sol.

Tomamos o rumo dos astros
e o horizonte abre-se-nos, fulgurante e vasto,
amaciando, nas sombras da tarde,
as cascas ressequidas de serôdias árvores.

E mais além, nas veias azuis da Lezíria,
nas fímbrias do rio,
tordos e rolas são velas hasteadas
num voo de fragatas à bolina …

E sob a nossa pele,
um reino desconhecido se explode virgem,
em plexo de sentidos,
de desejos incontidos,
num entrançamento de gestos circunflexos
em que as hastes dos salgueiros se dobram
se vergam e se fundem
à madre das águas.

 

***

 

Poema publicado em: Luso-poemas



publicado por Mel de Carvalho às 21:21
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007
Fugir, fugir de mim

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Fugir, fugir de mim e deste alagadiço cárcere

onde decapito desejos e belíssimos sentimentos
no vento incerto povoado da distância,
emudecida no clamor dum só grito,
e dos pássaros que me cantam calados por dentro,
em cenóbios, claustrofóbicos conventos.

Fugir do verbo que permanente te chama, em pranto
algoz e farto, fazendo de cada onda, ondulado,
verde planalto,
e das grades frias desta noite agoniada,
desta noite a respirar saudade nos poros do novo dia,
a cada inoportuna madrugada.

Deixa que me parta e que não volte,
deixa que tombe na dor do desalento, na enseada
agasalhada em torrentes de mágoa e morte.

Deixa que me cubram a boca plúmbea
no manto de magnólias, orquídeas e açucenas.
Que as nuvens elevem mais alto que astros
as minhas magoadas, silenciadas penas.

E que, amado, deste promontório angulado
o meu corpo em labaredas de chamas encontre
em queda o Oceano nele colado.
                                        Para sempre!

 ***

Publicado em: Luso-poemas

(foto de Mel)



publicado por Mel de Carvalho às 09:00
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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007
...no contraditório

(foto de Mel )

***

 

No azimute da memória a madrugada dorme
sem sono
sem sede
sem fome
na indolência vegetativa, faz-se silêncio,
faz-se ao silêncio,
no tempo de um verbo que não escrevi,
de um verso que não vivi,
conjugado do Passado ao Infinito,
vocalizado no estremecimento, no arrepio,
no encrespo do corpo,
aplanado em planos líquidos
de águas paradas no convexo do mundo

...no contraditório,

lá onde se espigam os olhares das jangadas
aporticadas da cidade
por entre frinchas sem asas,
sem flama. Em chamas.
Labaredas incendiadas no pez das próprias feridas.

Já é tarde. Muito tarde,
a bola de fogo já mergulhou circular
no bojo côncavo do meu mar.
Salgado.
Sem pauta, sem notas,
resvalo agora da arriba sem estribos nem arreios.

Deslizo, extinta, em planuras de memórias,
entoadas nos bicos alaranjados de mil gaivotas.

***

Poema publicado em: Luso-poemas; EscritaCriativa

Outros poemas da autora: www.noitedemel.blog.sapo.pt

 



publicado por Mel de Carvalho às 11:10
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Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Daqui, da proa do meu barco

 

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(foto de Mel, ilha da Berlenga)

 

***

 

Acolho-me da noite ressaibada
onde dormi nua, casta, virgem e basta,
em bonomia, sob as tuas asas amplas de morcego.

Na madrugada do desassossego
abrigo-me hoje de um tempo
em que as escamas se elevavam perfiladas
de um mar arrepiado
em que, de um lado a vaga,
do outro o vento

e esta dor
e o desalento

e as lágrimas, perdidas,
roliças, gordas, profundas,
iguais ao mar, iguais a si… escorridas
nos olhos invisíveis dos meus dedos plácidos ...

Deste tempo em que o verde bolinado dos meus olhos
fulgurou feérico na noite dos teus olhos,
que logo assustados partiram, dúbios mareantes,
na incerteza e na vontade de ficar,
na tristeza dissimulada de zarpar.

Acolho-me da noite
no ressaibo de um balanço de berço,
numa rola de barco,
das tuas asas de morcego em pranto.

(E do meu pranto,
de te saber mar-chão, em sofrimento...)

De um tempo em que foste mar de calma
e as gaivotas se explodiram coralinas no remanso
das branquelas das água

e tudo era sonho,
e tudo não mais que utopia e ilusão.

Daqui, da proa do meu barco,
eras o tempo de um tempo que se navegava
aproado, ao meu tempo colado.

________________

 

Texto publicado em: Luso-Poemas 

Mais poemas da autora: www.noitedemel.blogs.sapo.pt

_________________

 



publicado por Mel de Carvalho às 09:36
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Sábado, 23 de Junho de 2007
Desperto de um sono de mil anos

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(foto de Mel, Forte de Sº João Baptista - Berlengas)

 

****

Desperto de um sono de mil anos
com pálpebras cozidas com agulhas de saca
ao âmago virulento das palavras.
De quimeras embrulhadas em ventos e ciclones
no traçado de lonjuras secas de planos.

Acordo vinda do frio com os músculos hirtos
e os gestos quebradiços, corrompidos nos tojos
densos com que tecemos abraços de moluscos
apodrecidos por dentro de algibeiras.

Regurgito de um sonho verde, dormido à sombra
de penumbras farpadas a um mar de chumbo
e de vagas moribundas, sempre alteradas.

Espreguiço os sentidos à luz do novo dia,
purgo-me de ti,
bolino-me por dentro, no ressaibo e no revezo
do gosto e do pasto da noite da utopia.

Ressuscito por fim, no mastigo de rosas ácidas.

 ____________

 

Poema Publicado em: EscritaCriativa; Luso-Poemas

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publicado por Mel de Carvalho às 00:03
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2007
O que te dei, o que dou, amado...

fragata

(foto de Mel, Tenerife)

 ***

 

 

O que te dei, o que dou, amado,
na boca nublada do silêncio,
não cabe num poema,
por mais forte, por mais denso…
Nem sequer no porão do mais espaçoso navio.
Não se amarra
Não se aporta
Esgueira-se lesto, bravio,
nos escombros ruidosos do vento
supurados na voz rouca, na voz baixa,
de nós, permanentes vagas intempestivas,
a varrer, de lés a lés, o areal da costa.

O que te dei, o que te dou, amado,
era o meu tempo – é o meu tempo,
inteiro,
Era o meu corpo – é o meu corpo,
inteiro;
Era sentimento – é sentimento,
inteiro.
Será quiçá um mar de sonhos,
um olhar virgem nas artes d’amar.

Agora que o teu barco ameaça zarpar,
ameaça partir extinto deste porto em que se abriga,
nesta hora desprotegida, inopinada,
em que nem a luz da Lua rodeia os meus braços,
em que apenas vislumbro um só raio ténue de Sol
a iluminar os meus passos, quando fatigados
se ecoam solitários no eco dos teus passos;

Nesta hora ambígua em que ameaças deixar vazia,
a leira sequiosa da minha vida,
ergo a palavra, faço dela rosário, terço, bandeira
e hino - neste clamor de te falar de amor,
de te falar de findas mágoas,
de te falar da fola hirta do mar,
de te lembrar que as marés, tal como nós,
estão sempre em processo, em recomeço...

Elevo a palavra
guiada às cegas nas espigas trémulas das lágrimas,
que mais não são, amado, que neste plano,
pórtico ilimitado de oceânicas águas.

 

Publicado em: Escrita Criativa

 

***

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___________________

 



publicado por Mel de Carvalho às 18:25
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Terça-feira, 29 de Maio de 2007
Falou em mim um tempo nosso

Mar_Peniche

(foto de Mel, Peniche)

***

Falou em mim um tempo nosso, exangue,
em que os silêncios se proviam
nos olhos rasos dos abraços.
Em que as ternuras eram rutilantes
Girassóis. Infindos, em busca de si,
em busca do Sol.

Falou-me a mó da pedra gasta d’alva,
nesta fome de ti, constante,
desequilibrante
aniquilante
incapacitante de todos os gestos,
de todos os passos,
de todos os insignificantes movimentos.

Falou-me a falésia arribada em espera.

Esta imensurável dor a latejar,
a purgar-se lenta,
a proclamar a condição humana
Da chama
Da submissão
Da fome do teu corpo, da tua mão.
Da sede
da carícia adivinhada, pressentida,
da carícia ousada, plena, retribuída.

Da falésia ali, falou-me louca, a onda -
oferta, aberta e generosa -,
num colo líquido d'oferenda, de dádiva plena.
Serena a onda … serena a Alma.

Falou em mim um tempo nosso.
Chamou por mim, a sua Rosa.

___

Publicado em: Escrita Criativa; Luso-Poemas




publicado por Mel de Carvalho às 14:07
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Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
Ausente dos homens e das flores

 

dáliachuva

Ausente dos homens e das flores
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.

Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me étera no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas ...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.

Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!

 

 

in "Sibilam Pedras na Encosta", pág. 15

Publicado inicialmente: Luso-poemasPoesiaPortuguesa



publicado por Mel de Carvalho às 15:51
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007
Escorre-te em mim, como se foras rio

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(foto de Mel)

***

Escorre-te em mim, como se foras rio,
nas margens incontidas, alagadas, do meu ser.
Fluí na inclinação da luz de alma liquefeita,
a incendiar a voz improtelável da carne,
de sensualidade imatura e imperfeita.

Escorre-te em lava, sem medo, no anseio e no tremor.
Na ousadia que pressinto no rodapé da palavra.
Escorre-te em mim, tal lâmina d’agua,
sobre a terra sedenta do arejo na voz aguda da lavra.

Escorre-te em mim, cigarra desfalecida,
formiga concisa. Percorre-me nos teus dedos
húmidos de esperança. Percorre-me, na nudez
pálida de um bosque rumoroso. Desliza-me
o corpo a ondular, em cada vaga, em cada brisa
em cada volta de mar.
Na ancestral sabedoria, supérflua e transparente,
de nos sabermos iguais e tão diferentes.

Esgota-te em mim, amado,
convicto que sobre nós existem
nuvens a ofuscar o azul virgem do nosso mar!

***

Publicado em: RecantodasLetras, Luso-Poemas e EscritaCriativa


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publicado por Mel de Carvalho às 12:01
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Domingo, 29 de Abril de 2007
Ouso desafiar o propósito da viagem

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(foto de Mel)

**

Ouso desafiar o propósito da viagem
num voo audaz de pássaros afogueados
pintados a rubro no azul da pele do céu.

Ouso enfrentar o traçado pré-determinado
num compasso poético e apoteótico,
num aviamento triunfal,
no delírio epidémico e no proclamado êxtase
de um fogo lapidado nos recifes
gelados dos nossos comuns caminhos.

Nos baixios fortuitos e nos escolhos ocasionais
ouso enfrentar silhuetas dúbias reflectidas
nas sombras roucas de vozes projectadas
nos vitrais agora requebrados pela luz
de estrelas desmedidas
na certeza, meu amor,
de que existem rotas abrigadas
em búzios e em ostras ainda não desvirginadas.
Rotas só nossas.
Para nós e por nós traçadas!

Então, desafio-me na ousadia quase morta
Enfrento-me destemida no palco escarpado da vida
Enfrento bestas fustigadas em esporas
numa maquiavélica máquina de passivas horas.
Enfrento metástases, fístulas espiraladas,
chagas ululadas em ruídos sustenidos,
de soluços e sacaroses, açucares lentos,
na faminta sofreguidão de ternuras emancipadas,
de línguas penetradas na alma das salivas.
Ternuras escondidas e ressumadas nas palavras
que ainda não dizemos.
Dos gestos que não esboçámos.
Registos de que o corpo em segredo nos fala,
agasalhados lá no fundo, no convés, ao abrigo
das fúrias das marés.

Então, meu amado,
olho de novo o sonho aqui ao meu lado
neste teu quadro proclamado e
deixo que o amor renitente que nos percorre
e incendeia do corpo à alma, me conduza na vertigem,
no assombro e no delírio de um voo planado
sobre o teu voo de pássaro obstinado.

Porque num outro lado, em algum lado, te sinto
embalado na mesma toada adivinhada
de um mesmo sonho partilhado
em igual estado de desejo
de dar o corpo
de acasalar a alma!
Num selar o sonho com um infindo beijo.


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publicado por Mel de Carvalho às 17:45
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2007
Ele não tinha a pele verde ...
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(foto de Mel)
***
Ele não tinha a pele verde das colinas da Primavera.
Nem sequer dos seus olhos
escorriam azuladas águas transparentes.
Muito menos a sua boca
tinha o viço dos morangos pontiagudos.
Há muito que os cabelos haviam fugido, fio a fio,
tal luz de mortiço pavio, nas noites de mil cansaços ...
Não tinha de igual modo ombros largos de pórtico,
nem o esguio porte de um marítimo guindaste...
A fuligem havia trazido ao corpo a cor pardacenta
de um colheita de milho póstuma após derribadas chuvas
e nas suas mãos calejadas as unhas apresentavam
já a cor das passas d'uvas ...
 
De idade acometida era uma frágil barcaça ...
em busca de um pontão cravado no alto mar.
Trazia no fundo do casco, num recôndito espaço,
um tesouro inigualável - borboletas capsuladas,
ainda por desabrochar - no âmago do seu estômago.
(Bichinhos da seda, só para lhe ofertar).
 
E a força nas palavras, nos seus versos confessos
de menino travesso, de marinheiro ainda virgem
das mil voltas de (a)mar ... Tinha no desembaraço
do discurso a força indómita de jovem e saber aprendido
de um boiar à tona d'água. De um corpo fustigado
pelas trovoadas esparsas de um revolto mar ...
 
E um beijo largo e brando, e um beijo doce e manso
e um desejo de dar colo e de a mimar ...
Ela? De ser cais e de o amar!
A ele, o Mar!!!!

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publicado por Mel de Carvalho às 12:28
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2007
Canto-te esquiva, melancolia visionária

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(foto de Mel)

***

Canto-te esquiva, melancolia visionária

debruçada nos corpos de estrelas moribundas

e nos paralelepípedos das estradas embrulhadas.

Canto-te nos olhos verdes de mim, vestidos

d’ogivas incendiárias, anéis rubros dos pecados.

 

Canto-te nos gemidos sustenidos, ululados,

a povoar de cheiros a inodora atmosfera

na cegueira plácida e branca nas neves da alta serra.

Nas babas desnatadas das horas acatadas em espera.

 

Canto-te, Dulcineia, no mutismo chacoteado de um moinho

sem velas, navegado pelos ventos nórdicos dos Céus …

 

Num cântico longo e louco, do teu corpo seta insurrecta

aço cinzelado ou punhal, na minha carne cravado.

Erecta. Mastro, varal da vida.

 

Canto-te quando na madrugada, me rebolam

por dentro, ao ouvido fundo, os silêncios mais pesados.

(E os nossos lábios se colam de si mesmos distanciados.)

 

Neste sonho intangível em que a louca Lua se acasala na origem

com um astro contaminado. E ambos percorrem as veias do céu,

em nomadismos ciganos. Em que, caravelas sem mastros

(se) cruzam, marés, oceanos inclinados, em porões iluminados.

 

Fúlgidos, os cílios se beijam. Insanos, os corpos se amam,

cristas álacres, bocejos lentos. Desejos escorridos, no astrolábio

de flatos. E de novo do porão ao convés, uma e outra e outra vez,

a Lua é conselheira, entre os escombros dos ventos, brisas,

onde se matizam afagos, mimos, sorrisos ternurentos

e os remanescentes lamentos…

 

Canto-te esquiva, melancolia visionária …

 

**

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publicado por Mel de Carvalho às 17:54
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Quinta-feira, 29 de Março de 2007
Rotas de sal e rosmaninho

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(foto de Mel)

***

Não existem certezas absolutas no traçado impoluto
dos nossos cruzados caminhos; nem sequer experimentados
marinheiros, ousam adivinhar os imprevistos perigos de rotas...

Se até as claras águas travam lá nas nascentes
lutas maiores e interiores, antes de implodirem de gotas
lá no cimo cimeiro dos montes...
E de gotas logo fontes, e mais logo fumes riachos, ribeiros...
a comportar batelões ou navios ...
E as gotas florescentes são rosas, frondosos rios ...
a desaguar num mar, louco de se abraçar em correntes ardentes
de afagos secretos ... milenares meiguices, carinhos ...

E se o traçado reminiscente dos poeirentos caminhos da gente
tem a marca das raízes no calcorrear do pretérito...
E as pedras das calçadas, tem ainda coalhadas
as marcar ensanguentadas de batalhas. Crostas e cicatrizes...
E agora desenhadas, brilhos, colores da flor do sal,
rosáceas buganvílias e lilases rosmaninhos ...
**
Meu amor, escuta agora os risonhos trinados
e os chilreios povoados de príncipes passarinhos ...
Ouve e anota a lição dos seus gorjeios....
Atenta na linha esbatida das suas frágeis asas...
São ancestrais direcções, são estradas traçadas
na matriz d’águas... de muitos pelicanos, gaivotas ...
Olha o teu e o meu peito ... que as temos tatuadas ...
em linhas pré-cruzadas. O teu colo nos meus seios...

Nesta viagem que completámos, para nos encontrarmos
no sonho, girámos nós e a terra ... Em veios, silvados de
Amoras ... E, meu querido, eis agora chegada a hora.
Despe-me de espumas, veste-me de coisa nenhuma ...
Entrega-te sem reservas à audácia da descoberta.
Não silencies as palavras, abre-as fulvas, rubras.
Pétalas em cacho, em erupção, sobre a alma assedentada
da tua amada.

Planta em fio e em baba, plantios de beijos bocas.
Planta-os, nos mais altos dos teus e meus receios e,
nessa magia, nesse encanto, navega o verde olhar do
meu canto.

***

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Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Cânticos de Afrodite
(foto de Mel)
***

Colado está agora o topázio Mar Egeu ao azul

do vasto Céu. Silencia a Alma, serena,

 escuta apenas os rugidos erguidos - cânticos de Afrodite - ,

esplanados no lençol de verdes vagas.

 

Atenta nos inquietos roncos de Jeptuno -

das águas -, na  ripagem, no beijo dulcíssimo d’areia.

Vê ao longe. Da babugem da espuma emerge um vulto

difuso ... Divindade, Mulher-Sereia ...

 

Seja eu Kronos antropófaga, devoradora um a um

a força diluviana

de todos os meus próprios filhos,

que ousarei desafiar na vulcânica lava intempestiva,

na fúria da espada ou no corte frio d’adaga,

o caudal destilado do Destino.

 

Serei Vestal, jovial Sacerdotisa, Guardiã esvoaçante

em argênteo Panteão de Gregos Deuses.

Que das  vagas luminárias, tecerei colares, diademas,

adornos incandescentes, em líquidos beijos

d'eternos amantes.

Que por ti, por ti apenas, desenharei na espuma da ondas,

lonjura incessantes de poemas...


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publicado por Mel de Carvalho às 14:00
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Sábado, 17 de Março de 2007
Navegaste o pranto dos meus olhos …

 

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(foto de Mel)

***

Embocaste pela boca aberta do meu pranto,
num ponto preciso do estofo da maré. Marinheiro
reconhecido na arte de bolinar, navegaste o lamento
pungente dos meus olhos e neles colocaste uma a uma
Primulas, Violas, Begónias, num plantio desmedido
de boninas, de flores, na arte de replantar “Amores!”.

Lavas de lume emergiam da crosta incandescente.
Não temeste. Falavam de um tempo em que a Alma
em chaga, sem que disso tivesse dado alerta a meteorologia,
entrara abruptamente em erupção.

Destemido Marinheiro, buscaste na cana do leme, direcção.
Acreditaste que lá em baixo, na sua porta, o metal sulcaria
o pranto em mansas vagas derivadas. Aplanadas…
À carlinga fixaste o mastro onde içaste a bandeira da Paz. 
**
É manhã!
A luz escorre agora. É leite derramado na Noite que morre.

Hoje eu sei que o que escrevo não mais é que o acordar
de um Sonho prematuramente adormecido no reponto da maré…
Fecho os olhos! Sob a claridade pálida da fugidia Lua,
a linfa ondula. Sobre a areia as gaivotas desenham-se
em orgânicas danças. Em espasmos, atingem o orgasmo.
De braços abertos encenam cânticos nupciais.
Tudo é bucólico, tudo é simbólico, no reino dos animais!

Navegaste o pranto dos meus olhos …

***

Poema publicado em: http://recantodasletras.uol.com.br/visualizar.php?idt=408966



publicado por Mel de Carvalho às 10:06
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Domingo, 11 de Março de 2007
No acto da criação
(foto de Mel)
***
Na hora primordial da Criação,
poisei uma a uma nas mãos de Geia Divina
todos os singelos sonhos de uma mulher-menina ....
e nua, me entreguei a ti, Divino Mar....
Quando te criei em mim, era Tethys [1] ,
virgem fecunda, fecundada no Sonho-Sono
te amar, em Loas longas de Luar.
(e na própria  canção de ninar, 
não mais que Divindade adormecida).
Rebusquei no magna escorrente e sanguinário,
noite e dia, em alquimia, argenta flor da manhã,
madrepérola – dons, qualidades secretas,
na caixa guardiã. (Estava vazia ... eu não sabia.)
 
Não poderias ter asas de pássaro, voar ...
Não poderias ter a velocidade impar de um Jaguar ...
Não poderias ter dos peixes epítetos,
poderes, atributos - permanentemente nadar
sem naufragar nas voltas do Alto-Mar.
Eras Sonho...
Que te podia eu, ofertar?
 
Então,
tal Prometeu, subi por ti ao anil azul do Céu,
roubei uma ponta de fogo efervescente,
dos Deuses, em distracção,
e ta confiei, na palma da tua mão.
 
Hefesto[2], em permanente erupção,
terias a opção de me  dilapidar para sempre
em  veemência, na inclemência do ardor
de uma Paixão ...  (Que na hora da criação,
abracei na eloquência Epimeteu[3] seu irmão.) 
Por ti ... subi ao mais alto Monte, aquele
donde brotam as milenares raízes
gotas, de todas as terrenas fontes
e nele, deixei, esqueci, o primado do juízo
- ensinamento preciso do próprio Prometeu[4].
 

[1] Tethys é uma das divindades das teogonias helénicas. Simboliza a fecundidade “feminina” do mar.
[2] Hefesto (ou Vulcano) era o deus do fogo e das erupções vulcânicas.
[3]Epimeteu, etimologicamente significa o inverso “ a imprevidência” - aquele que primeira faz e depois reflecte.
 [4] Prometeu significa etimologicamente "o que é previdente"- pensa primeiro e age depois.
 

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publicado por Mel de Carvalho às 16:11
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Terça-feira, 6 de Março de 2007
São cordas de água
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(foto de Mel)
***
Depois da chuva forte e do denso vento,
emerso será o tempo em que, aqui nesta orla de Mar,
nem sequer bulia o cantar da gaivota ou cotovia.
Pontiaguda, a desnorteada chuva, de dor e pranto,
rasgou trevas de bruma, sulcou abismos, despenhadeiros,
na força indómita de um punhal.
Soltou pedaços de tons turvos do firmamento.
Camadas sobrepostas de cinzento.
São cordas de água as árias soltas de harpas em uníssono.
(Do teu e do meu corpo.)
Cordas salgadas, onde mergulhas as pontas
acesas dos teus dedos
p’las labaredas do desejo.
 
Ao acaso, flutuam sensibilidades esbatidas a anil.
Recobrem Dunas. Espelhos, lençóis brocados de vagas.
Bravas, vogam livres.  
Sentimentos sem âncoras...

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publicado por Mel de Carvalho às 00:49
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Quinta-feira, 1 de Março de 2007
Rutilantes, as Gaivotas ...
000a5t5g(foto de Mel, Ilha das Berlengas)
***
Áureos os gestos brandos, gastos,
de quem busca em espelhos partidos, os brilhos
de mil cópias desfocadas, rutilantes imagens,
assim as Gaivotas
se alvoroçam
e esvoaçam
contra a luz clara das manhãs da Ilha.
Em busca de si, debicam no plano turquesa das águas,
o alimento de poetas em jejum.
Famintas, desfloram as ondas, uma a uma,
enchem-se de gotas soltas, espumas,
plumas sílabas aladas de poemas.
 
Ah, sim ... se as Gaivotas pudessem falar ..
Das vozes das Ninfas que vagueiam no abismo
Das velas pampas quebradas pelas rajadas do Vento
Do lamento e da desordem das trovoadas
Da marginalidade areada que acolhe o insano Mar
Dos gorjeios, cantos pueris das andorinhas
Dos receios de rosas nuvens quando
cinzentas retumbam em líquidas projecções,
nas imensidões do Infinito Oceano,
ou sem destino, varrem a praia
provindas do seio uterino de Gaia,
em forma de tsunamis ...
No delírio, inconstantes ...
Do sopro fino das Furnas com vozes aladas de violinos..
E das graças alvoraçadas das Garças pernaltas...
exímias dançarinas de ribalta...
 
Rutilantes ...  As Gaivotas agora poisam. 
Apenas esvoaçam serenas, sobre o lençol oblíquo das águas!
    

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publicado por Mel de Carvalho às 00:01
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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007
Não já não pairam pássaros ...
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(foto de Mel, Berlengas)
***
Não, já não pairam pássaros a trespassar o luto do céu.
Nem sequer as gaivotas
pontilham areia branda em Ilhas submersas.
 
Não, nada bule em danças, volúpias refulgentes de cor.
Nada se agita
para além de uma vagarosa melodia infinita
dum tempo perpetuamente vago,
a povoar no afago, lapas lisas, seculares,
esculpidas p’lo  bisel da agitação....
 
Guio-me pelos sulcos elípticos de vagas,
pelas ruas sempre desertas
dos silêncios.
Pelos olhares viajantes
que encontro nas pupilas das crianças.
Neles reencontro flores perenes, de papel,
e o encanto ondulante de vales e serranias.
Caudais de  rios tecidos de águas doces de mel.
E cavalos urgentes.
 
Agarro-me às suas crinas.
Sejam elas espigas torcidas
p’los ventos, na bolina do resto das nossas vidas.
 ***

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publicado por Mel de Carvalho às 00:23
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007
No altar de mansas vagas construi um Templo
 
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(foto de Mel)
***
 
No altar de mansas vagas construi um Sagrado Templo.
Nele, arena líquida à tona d’água,
te reergui, Jaguar, Deus ou Animal,
fera faminta e, Vestal, me rendi a ti em utopia.
Decifro o sinal. Emudeço silabas brancas.
Abertas, flores incertas e archotes brandos,
se elevarão para além do Mar Egeu,  
em sonoridades Silénicas de canto e pranto.
Em silenciamento,
na saliva salgada d’atávicos segredos,
que folheio lentamente,
na ponta avermelhada dos teus verbos.
 
Sim, folhearemos cerzidos, no marulhar
obliquo d’ondas fumegantes, fluvialidades ancestrais.
No encanto do cio dos animais.
Em fio, gotejarão do centro dos olhos quentes de lava,
olhares incandescentes, códigos prenhes de épicos saberes.
D’ afectos ... num (re)construto de todos os alfabetos.
E as vagas vogarão connosco por entre os dorsos e flancos abertos.
Do nascer ao Sol Posto.
Catalogaremos em cotas, à cota rasa do Mar,
cada rota, cada traço do desejo de, na boca por o beijo.
E os ventos virão p´la Noite desejosa de ser Dia,  
morder o bico comprido da Lua, na carne nua da Rosa,
no cantar alado da Gaivota à Cotovia. 
E a Lua se matizará de platinados reflexos,
de penugens esvoaçantes de afectos...
 
Ao longe Tassos, Ilha Luminosa e aqui
este Céu, límpido. Transparente.
A brisa corre suave, quase se não sente.
 

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publicado por Mel de Carvalho às 00:14
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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007
Sem lábios de palavras

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(foto de Mel)

***

Sem lábios de palavras,
reergueste-te da neblina da Noite,
Nereu, vindo do fundo bojo do mar.
Não és matéria; não tens forma;
não me tacteias em plantios de flores,
nem exalas sequer os seus odores.
Não tens o gorjeio líquido d’ aves marinhas.
 
Elevas-te p’lo meio de sibilos frios,
enlaçado p’lo nevoeiro acicante.
Sem farol, nem faroleiro,
despontas ao longe, no estofo da maré.
Na aparência de quem se fantasmagoria
no embuste de, na Noite, ser Dia.
Soltas as redes, emerges à flor das águas.
És bruma, neblina. Amedronta, fascina.
 
(Na planície, Carraçeiros, negros Corvos,
aves de rapina. Misturados, em alcateia,
com Milhafres debotados, tecem estranhos
cantos Gregorianos, num (des)concerto
de humanas vozes. Arrepiante melopeia).
 
Olho-te de frente.  És rio [1] sem braços,
galhos emergentes de árvores.  
Em busca de Zeus. Estanco-me no passo.
Oiço no restolhe das águas a porta do leme,
no talhe, no corte. Na busca de direcção.
Oiço-te intensamente.
Projectas-te Nauta, no recorte do Horizonte.
Em busca de azimute.  Do Zénite.
Rebuscas primitiva rota. Nos veios da água.
 
E no impulso a veia brota, artéria repleta
de sangue quente, a esguichar.
É fonte funda, intensa, imensa.
Vestal ou Ninfa. Pulsa, flúi. Da boca ao ventre,
vestida de campos verdes. Azul de mar.
Cada batida é vaga vagueante,
cada onda varrida, canta mareante,
um cântico insano de Mar … De te amar.
 
De um finito nivelado, de fundos profundos,
bancos de corais vermelhos de fogo…  
Delimitados, apenas dois corpos.
Entre a água e o luar.
 

 

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publicado por Mel de Carvalho às 17:30
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Sábado, 17 de Fevereiro de 2007
Língua das Ondas
(foto de Mel)
***
Quando em silêncio aguardo a aérea noite,
sentada nas cadeiras desconexas da madrugada
silenciada, enfaixada em mutismo maduro,
visto-me com os cheiro ocres da terra
e com cantos helénicos de cigarra.

Nesses momentos, a Lua abstracta,
dorme placidamente.
Alheia,
 projecta-se no ventre azimute do Mar
e aqui, nalgum lugar, em quebrados vitrais,
postigos andrajosos d'águas.
Escorrem limos nas fragas...
( E, simultaneamente, trevos de quatro pontas,
e estrelas de cinco folhas, despontam efervescentes
em ácidos verdes de doces searas.)
Penduradas em pêndulos de horas, alcatruzes acrobatas!

Nesse silêncio circunspecto, oiço a urdir, o Tempo.
E ao longe, lá bem ao longe, no firmamento, os riscos
vermelhos do teu cântico. Apelo, chamamento.

Chamas-me na língua líquida das ondas,
com garras hediondas, gestos amargos de pranto.
Cerras-me unhas de diamante e porcelana,
no âmago do meu ventre.
Mar Felino, Jaguar Errante. E contudo,
sonho contigo permanentemente,
desejo consagrar-te cada coágulo do meu sangue,
cada baba da saliva da minha boca beijada,
pelo fogo esculpido em naifadas de palavra.
Quero que me esventres a começar pelo umbigo
com garfos de lava e  fogo, no destemperamento louco,
da tua devoradora boca, em cada alongada onda.

E que por fim acalmados,
tais cântaros tombados ou ânforas cheias de nadas,
sejamos azougados, dois meninos, placidamente a ninar.
(Chove ... Deixem-me fantasiar...)
 

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publicado por Mel de Carvalho às 00:01
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007
Hoje
Barco_Mastro
(foto de Mel)
****
Hoje não serei Melíade , Ninfa Mareante
enlaçada em redes rotas de Mar,
(contida dentro de um tempo
que tem medo de zarpar).
 
Serei  Fada, nómada ou viajante.
 
Deixarei, para lá do Oceano,
a Noite perfurada por tridentes de Faunos
desnorteados. Desventrada.
Buscarei da luz a claridade,
da fogueira incendiária da Vida
o polme supremo da verdade.
 
Não, não serei espuma retida
na garganta da madrugada;
- que sou a proa esporada, mastro
elevado do navio contra o azul alabastro
do alto Mar...
 
Não, não sou também agora
concha silenciada
no parapeito húmido da alvorada.
Nem ancoradouro onde acordam desejos
desiguais de vagas alterosas e de búzios vazios.
Nem teatro de conchas virgens de espanto.
Nem sequer serei desfolhadas de gestos
descoloridos em grinaldas de brumas.
 
Hoje, serei livre. Como é livre o
emergir do Vento em gestos francos,
por dentro dos flancos ondulantes dos audazes amantes.
 
Serei Cais, onde Naus Catrinetas de bem querença
vogarão no ímpeto anseio, artérias celestiais.
 
Hoje serás pássaro migrante
sem sono, comandante, timoneiro
altivo e audaz do nosso cruzado destino.
 
Ficarei aqui, nesta orla de Mar,
deixarei que os nossos gestos
se revelem sem âncoras
por dentro do farol do sangue incendiado
na flor do sal da nossa pele
e nos arquejos de milenares caminho de prazer.
Rotas
rabiscadas pelos sábios bicos abertos de gaivotas.
 
Hoje serás Jaguar Eremita reencontrado na solidão
do acontecer. 

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publicado por Mel de Carvalho às 00:07
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2007
Submergi Semideusa ...

(foto de Mel)

***

Cheguei a ti de asas abertas, soltas ...

Emergi do ventre pálido d’águas

por dentro de sons agudos d’ alcateias.

Vozes dilaceradas, revoltas.

Emergi e em oráculo me consagrei a ti

assim, espuma,

nua de mim, serena,

vestida apenas de silabas de poemas.

Ofereci-te o tecido do meu corpo

para que fizesses dele

palco

em que, num único acto,

Dramaturgo, Ensaísta, Actor,

elevasses o Sagrado Cálice, Elixir do Amor ,

ao extremo,

ao Planalto mais alto,

num grito de êxtase solto,

sentido para lá do Monte Olimpo.

 

Submergi Semideusa, revolta dentro de mim

e emergi Afrodite,

Deusa dos Mares e me ofereci a ti!

***

Música que sugiro: http://www.esnips.com/doc/1d6ad1b3-d3b3-427e-9182-e62a4fb5012f/Balada-para-un-Loco (Astor Piazolla)


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publicado por Mel de Carvalho às 00:27
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007
Faz-te rio em mim
(foto de Mel)
***
Sabes, pesa-me a tua inexistência.
Pesa-me toneladas de granito
no suplante de um fino corpo de vidro.
 
A Alma acorrentada (frágil barcaça) penetra a custo
a greda ressequida de uma estrada
negra de nadas ....
E se busca.
 
Chove.
Chovem do Céu gotas
de sal e sangue. Barram-me a pele. Ferida,
não me reconheço, envolta
em duras crostas, ensanguinhadas.
 
Busco o rio aberto que te sinto.
Busco-te para que me asperges, me purifiques,  
- e te encorpes, sejas rio e logo Mar infinito,
nas águas que sou e que te ofereço em sacramento.
 
Vem,
Senta-se aqui perto,
desfolha no mutismo da palavra
uma a uma, as letras de um alfabeto.
Bebe dos rios planos do meu pranto,
bebe da saliva beijada
que por ti escorre em fio,
na pele rosada da minha boca.
Seca com o teu manto de Lua Cheia
transbordantes veias de fel e mágoa, retidas
em comprimidas margens.
Faz-te rio em mim!
 
E faz deste tempo de dilúvio, um tempo fértil,
campos recobertos, aluviões ...

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publicado por Mel de Carvalho às 21:30
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2007
Marés de Neptuno

"... não existem verdades sagradas, todas as asserções devem ser cuidadosamente examinadas com espírito crítico, os argumentos de autoridade não têm valor ..."

Cosmos, Carl Sagan.

0008y21e

 

(foto de Mel)

*** 

Quando no meu Mar marés altas de anunciam,

num fluxo periódico, sistemático e repetido -

na atracção Universal de corpos celestiais -,

e as águas se elevam e já são braços,

e logo níveas asas liquefeitas,

no esvoaçar incessante de gaivotas,

bucam-se margens, tal amarras.

 

E do seu centro, abismo, mar imenso, paul escuro,

uma claridade se alteia,

não tenho mais certezas, nem sagradas verdades,

que do imo do verdes das águas, refulgente,

um coração explode, bate desmedido, sente.

E contra forcas centrípetas faz de leme

e  do frágil sonho o seu remo.

 

E de cada instante de ausência

onde não encontra a placidez dum sorriso cruzado,

na latitude do seu próprio sorriso,

tece redes, rosáceas de palavras,

estas que depois vem solitário lançar ao Mar.

 

Se de Marés Altas se espraia na urgência

de ver lagos planos a planar

por cima de revolto Oceano

é nas poças de marés, na maré vaza,

que encontra de si, o seu próprio sustento.

(Que é nas depressões o seu resídual acervo)

 

E numa luta continuada entre ti, Geia, Terra pesada

e a própria a negra Lua – num binário sempre em rotação–

despontam as imensas massas de águas,

tal corcundas,

violentas vagas, marés prenhes e cheias.

 

E no estofo, reponto de maré,

procura a Alma o equilíbrio e se detêm

em incessante demanda, nem que seja

da maré de mais pequena amplitude –

a célebre Maré da Quadratura.[1]

 ___

[1] Quadratura: O sol e a lua formam ângulo de 90º graus em relação à Terra.
Mar
é de quadratura: Maré de pequena amplitude, maré que se segue ao dia de quarto crescente ou minguante.


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publicado por Mel de Carvalho às 16:51
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Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2007
Sobre azul-cinza do firmamento

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(foto de Mel)

***

Entalhemos de imediato, letras verdes

sobre o azul-cinza do firmamento, bravos mares d’ ondas.

 

Tal corsários ou piratas,

em busca de (des)ordenados mapas,

voguemos num rebusco traçado e convulsivo.

Avancemos sem mais delongas, dentro de espirais de sombras,

sobre salinas de lágrimas e na densa popa das iras.

 

Espeólogos iniciantes, façamos então de cada vaga,

um pontão, uma varanda, uma barcaça

ou agulhado passadiço,

elevado, açulado, sobre desmesurado Oceano.

 

Façamos deste lugar, com o Sol nascente a brilhar

o inicial reduto (semente de um novo fruto), 

donde partamos na ousadia de por dentro velejar.

Sejamos nós mareantes,

de um barco sempre a zarpar;

Sejamos nós nautas,  joviais embarcadiços,

num Sonho de se encontrar e,

de mãos acasaladas, procuremos sem receios

os naturais abismos, algares secretos de nós.

- A ilha dos Enleios.

 

Procuremos a nossa escora,

(tanto que a Alma chora ...)

no centro de cavidades rochosas, ancestrais,

de rosas desenhadas em lapas horizontais.

Mergulhemos

em subterrâneos rios, no vácuo e no abismo

e no magnetismo

de mil cavernas de poemas.

Avancemos, no palmilhar de milenares Estalagmites

e no deslumbre de rosáceas Estalactites -

milhões de gotas, redondas e soltas

de um abobado tecto (o céu de um alfabeto)...

 

Sejamos nesta viagem,

por dentro dum umbral aberto, espeólogos viajantes.

Com salivadas bocas - híbridas, coalascentes- ,

adensadas no magnetismo-desejo de se beijar,

sulquemos magnânimos sentidos e,

finalmente, achados de tão perdidos,  

domemos Adamastores de todos os cavados mares.

****

Música de sugiro: Sergei Rachmaninov - Prelude in C sharp minor, Op. 3, No. 2.mp3


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publicado por Mel de Carvalho às 09:00
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
“Simplesmente... porque sim...!"

 

(foto de Mel)

****

 Simplesmente porque sim,
acredita, que dentro de ti se agita
uma alma que se auto-sustenta
da cauda efervescente do cometa;

Que o anónimo pintor
captou o teu sorriso nas cores de uma paleta
e que tas devolve, no quadro que não assina,
a sua obra prima...

Simplesmente porque sim,
porque o Mundo
te olha através de uma permanente janela aberta...
Em dádiva, em oferta!
 
E te presenteia
nos tons e sons de nós, nota a nota,
sobre a fina e quente areia;  
E nela encontras desenhada,  
sem pauta a semicolcheia.
E que o Cosmos
se matiza e erotisa
de prata numa bojuda Lua Cheia.

Que o Amor
se abre cálix em flor;
e que o Mar te acolhe tal filho pródigo
em cada submersão, em cada mergulho,
que encetas dentro do teu próprio Mundo ...
(O Mar, se cala somente para te escutar e fica mudo)!

E porque as tuas mãos urgentes tacteiam
o álgido frio da negra noite
e dela recolhem o arrepio
de amantes redescobertos em cio;
E que o Vento Norte
que as torna mais seguras,
mais fortes.

E porque mesmo no vazio o corpo
se entrega e se projecta
na eterna procura da luz
de uma bruxuleante lanterna ...

E porque de asas abertas
e de bicos em riste
numa verás uma gaivota triste ...
eu digo ...
Jaguar, não te quedes ... insiste!

***

Nota: Parte deste poema foi deixado por mim, como comentário no blog http://heartpierrot.blogspot.com/2007/01/imtavel.html


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publicado por Mel de Carvalho às 18:30
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Domingo, 28 de Janeiro de 2007
Crivo aberto

(foto de Mel)

No bastidor crivo d’um tempo aberto,

em certos momentos,

o  verbo ponteia a ponto incerto

a cambraia rósea, velamento,

pele do corpo.

 

Em certos momentos suponho

que não existo…

Que dentro de mim apenas

voluteia aragem, brisa,  inanidade …

 

Que sem o toque pressagiado do teu sobre o meu corpo,

sou Pégaso sem início meio ou fim  – precipício -,

sem forma, nem idade.

 

Sou lanugem mansa,

nata esvoaçante, saliva salgada,

adensada

aberta.

Bagugem, espumada na crista

D’uma onda desordenada.

Redonda …

Salinada …

Sempre inacabada.

 

Sinto o frio. Gélido, percorre veias em lava.

Sinto-me imensa de tão pequena.

E neste estado me questiono sobre a

razão de constante turbulência.

Oiço Strauss, danço a valsa,

descalça, sobre a areia …

 

Avanço e tropeço; num ciclo de eternos recomeços.

Um jogo de sombra e luzes …

a água principia e regressa em alcatruzes ao colo

refúgio do meu rosto.

E o Sol se despenha em inexplicáveis contornos,

no manto pálido de um semblante –

num composto de encobertos Luares de Agosto.

 

Espero-te. Sei que viajas, cavaleiro andante,     

dentro duma bolha efervescente de palavras,

vindo de um Mundo próprio – aquele

em que me abraças, me desmanchas as tranças

me diademas em metáforas de poemas…

Me despes e me vestes com a tua pele.

Apenas.

 

E me recobres de rosáceas rosas de Luz.

E teces sobre o meu corpo - tensado, no ardor

de milhões de vogais salivadas, cristalizas,   

no  bastidor -  bordaduras sagradas,

loas de amor…

 


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publicado por Mel de Carvalho às 16:23
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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Em certas manhãs de Outono

Mar_Peniche

Em certas manhãs de Outono
o cheiro maduro da fruta e o vinho mosto
escorrem na garganta aberta do teu rosto.
E os pássaros esbatem-se de asas abertas
Sobre a planície bravia. Incerta …

Em certas manhãs de Outono
destemperados os Oceanos esgotam-se
em rios aplainados - alfabetos de palavras
no calafrio de noites sem sonhos nem sono …
Vazias... Frias!

Vazio,
o corpo retém apenas do sangue à lava
e o verde incandescente do prado ao fim da tarde.
A Terra borboleteia, revoluteia …
É pião de canalha; é grito ensandecido, desabrido.
Tecido - Água sobre desfiladeiro aberto. Abetos …
de afilada caruma penetram os seios tugidos da Vida!

 

***

(poema deixado em comentários do blog: http://blog.comunidades.net/rimbaud/index.php?op=arquivo&idtopico=149326)

(foto de Mel)


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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Sigo os teus passos

cao_olharomar

(foto de Mel)

***

Sigo os teus passos

no desenho traçado da vaga sobre a areia.

 

Sigo-me, docilmente

na amplitude entre a maré vasa e a maré-cheia...

És Terra e Mar – és lastro de Barco e és arado.

Ferro e Fogo, a navegar nas asas de um olhar.

 

Sigo-te e te digo:

Busca dentro dos meus olhos, a acendalha,

a inicial  luminosidade,

o rastilho da cegueira na noite cirandeira.

 

Lavra-me a Alma, profundamente, por dentro,

soltando dela leiras, alfobres

no estoque de beijos abertos e lentos.

Lavra-me a alma, no corte de cortar as vagas

semeia nela, sementes – diamantes e pérolas

de Paz.

 

Sulca-me o corpo, na busca do teu privativo

alimento. Retalha-o, sem medo p’la aço

do teu afundamento. Batel, em constante movimento.

Na eterna arte de bem esgrimir, em toda a parte.

Busquemo-nos, vaga e barco. No tacto.

Busquemos planaltos, campinas, descampados,

verdes prados e comunguemos em altar

com a Natureza, na harmonia de certos

dela apenas e só uma parcela.

 

Sigo os teus passos

no desenho traçado da vaga sobre a areia.

 


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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Quando nada do que fui aqui restar

(foto de Mel)

***

Quando nada do que fui aqui restar

o Sol declinará cadavérico sobre a praia

num abraço de areia doirada.

 

Pronunciará, lentamente na sua ritmada cadência,

por mim, no marulhar, tal onda ordenada,

em cada vaga, uma a uma, as vogais

chagas abertas, feridas incendidas de uma vida

de menina, de mulher, de uma Fada ...

O Sol .... será da espuma alva -  do que restar do meu corpo -,

o tear, o altar e o tumular lençol ...



publicado por Mel de Carvalho às 16:26
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Domingo, 14 de Janeiro de 2007
Ser ave e poder voar ...

Berlengas (gaivota) - (foto de Mel)
"A boca, onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar."

Eugénio de Andrade
 

 

 

 

 

 

 

Existem momentos em que me inquiro sobre o verdadeiro rumo das aves! Voar? Ou apenas existem para que nos questionemos sobre a fragilidade da nossa própria existência? De comuns mortais almejando sulcar o anil veludo dos céus? Se nada temos por certo senão o facto de que chegámos vindos de um espaço escuro, de um túnel de carne e que a luz do dia nos acolheu e nos disse: - Existe!!!!

Existimos.  E nesta caminhada buscamos o eterno Graal Sagrado. A taça de cicuta em que nos afundamos, insanos. Nesta busca, soltamos o animal que em nós habita e que, não raras vezes,  nos impede de raciocinar.

Em boa verdade coabita em nós a dualidade sermos racionais - pretendermos racionalizar tudo - e não obstante, sermos animais e como tal, reagirmos de forma instintiva.

Em momentos de tensão somos animais. Todo o nosso sistema metabólico se programa para o ataque ou para a fuga... Fugir... Voar... Voar alto, mais alto, voar ao infinito e do alto, soltar o grito...

Não, hoje não quero racionalizar ... Quero apenas ser ave e voar. Como tu gaivota, que insistes em não abandonar este espaço-terraço, virado a Poente. Olho-te com os olhos líquidos da madrugada. Olho-te com estes olhos de criança, no matiz topázio do verde-mar. (Continuo sempre a sonhar...)

 Desfoco... já não te vejo, Gaivota ... Apenas um vulto difuso se projecta contra o Poente... Apenas...

A alma, essa, atracou nas tuas asas e sulca as veias do céu... "espera o ardor do vento para ser ave, e cantar." 1

Recordo Eugénio... Dentro de mim borbulham as palavras sem bocas, essas que falam de bocas sem palavras...

Desavisadas, as palavras, sopram as nuvens assentes sobre os meus cabelos... num redopelo.

São vento... Despenteado o pensamento, liberta-se de amarras e voa, alado, acalentado nos braços alísios de um tempo. Voa...  Voa...

Não, não me digas nada. Que a noite lisa, pura e limpa, borda agora o negro da estrada. Deixa que o tempo se esqueça de nós. Que as horas, de cansadas, adormeçam sentadas ali na amurada. Deixa que a lua se olhe nos espelhos mil vezes reflectidos, dos meus e dos teus sentidos na nudez imensa das ondas repetidas, ordenadas pela gravidade das estrelas e dos cometas. Pela urgência da gravítica atracção dos corpos.
Não, não digas nada, que cansadas estão as bocas de mil palavras. Mascaradas. Disfarçadas de aves sem asas.

Toma-me a alma, nesta noite dos dias, e diz-me sem palavras que sou a tua amada.
Enfeita-me os cabelos de astros, entrelaça-os em grossas tranças, como quando era criança. Douradas. Da cor da areia da praia…

Conta-me de ti, dos teus sonhos, dos teus medos, dos teus desejos. Conta-mo na cadência de cada onda tombando, ininterruptamente. De trás para a frente e no reverso, na maré vaza ou maré cheia… Melopeia … Sem palavras.

Conta-mo num lampejo. Do teu olhar, fulgor … Esse que adivinho, existir, quando ausente de mim, olho as estrelas equiparadas às asas de uma gaivota projectadas no fundo de um céu azul. Nesta orla de mar.

E, menina do Mar, acasalo com ela, os sonhos de navegar … sempre a planar.
E de igual modo, projectada me vejo no verde esmeralda do mar … E no rosáceo das rochas desta ilha tão antiga ou, quando do topo do monte, situado a jusante, vejo o verde prado constante … a ondular e as árvores de tão sozinhas num perpétuo varejar.Tombadas até ao chão no varejo do vento insano. Choram as hastes partidas, arrancadas assim à florescência da Vida … Quando a semente brota do chão o fruto tomba na concavidade da minha mão.

Nesse momento sei que existes e te busco na perfeição de um mundo (re)construído. Para te amar. Na melodia do piar de mil aves do mar, das ondas incessantes a marulhar, nos cheiros matizes de sal e pinheiro. No negro-verde de densas florestas povoadas de Druidas e de Fadas.

Não, não digas nada. Deixa as nossas bocas coladas, que seladas, falarão mais que mil palavras…

1) Eugénio de Andrade


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publicado por Mel de Carvalho às 21:17
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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007
Bolha d'água

(foto de Mel)

***

Bolha d'água!

Astronauta, deambulo

sem rumo, na noite sem sentido.

Que esmagado, projectado no Eco infindo,

no azul restolho de secas folhas,

o Sonho se esbate na aba alva da madrugada.

Lentamente,

nas páginas do folheadas de um Livro chamado Tempo...

- folhoso, impresso, letra a letra, signo a signo

em perpétuas metáforas matemáticas -,

nas somas somadas de todas as horas

que passam, escorrem fio, ampulheta, sem destino...

Onde se encontram assentados

todos os deificados quartis segundos

das horas desdobradas.

Atómicas... atónitas.

Folhas tingidas de vermelho coral da Vida!

Bolha d’água,

escorrida, na cor da Paixão. Subterrâneos veios,

lençóis friáticos, nos tons topázio de sangue e cinza. Negros.

 

Ceceias-me a Alma,

na primordial centelha, provinda da madrugada ferida.

Entras em mim, no dobrar pregas, saias da noite;

Camisas de varas apertadas,

estranguladas vestes das alvoradas e no

fiar dos negros dias.

Sem ti!

 

 Nada mais sou que bolha d’agua baqueada.

    


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publicado por Mel de Carvalho às 11:19
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Domingo, 7 de Janeiro de 2007
Tinta verde
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 (fotos de Mel)
***
 
 
A casa acordou no cheiro da tinta fresca e no verniz. Instalado o caos, apenas subsistem os cheiros mesclados em densos nevoeiros. Da janela em frente, no Mar da Palha, os braços de Tejo,  ganharam uma nova moldura de verde-água. A minha parede!
Agora seca, a cor parece-me mais amarela e menos verde. Acetinada, num toque mágico de pele de corpo.
Aquela sensação de não saber por onde começar!
Os plásticos sobre móveis antigos e por baixo, livros, bugigangas infinitas, registos de uma vida, desenhos de crianças, cadernos sem folhas … Folhas sem cadernos… Cartolinas, Vinis (será que ainda toca o gira-discos?)… Carradas de roupas, sem préstimo, sem dono … Bocejo… tenho uma outra espécie de sono… chama-se “Desalento” … Respiro fundo, o momento. Inspiro o nevoeiro, leitoso. Uma espécie de alimento.
Lentamente, desço as escadas geladas, decido que não vale a pena o banho. Visto um fato velho, prendo o cabelo, minimizo as higienes, tomo um café de pé na bancada velha da cozinha, de cem anos… Não, hoje não folheio revistas. Em revista tenho os retalhos de uma vida, tombados pelo soalho da casa, dependurados nos quadros jacentes agora sobre cadeiras desaprumadas. Cadeiras sem rumo …  De uma vida ordenada, sempre no rigor de um fio de prumo … até um dia. Quando foi que me cansei de mim? Em que data? Não importa… Mas sim, estou cansada de mim.
Dou comigo a pensar como seria bom se pudéssemos pintar as paredes da alma de verde-água, amarelo… E como seria bom, se igualmente pudéssemos passar verniz nas estaladelas de um caminho …
A passos lentos, dirijo-me à máquina da loiça, abro, arrumo a chávena.
Lentamente pego num balde e mil tarecos de limpeza. Subo as escadas marmóreas. No andar de cima, esperam-me umas paredes verdes-água, amarelas vivas(das). Revestidas de vinil-seda.
Tenho sede!
Sede de vestir a alma de verde. De sonhar verde, de cheirar a maças de ser Primavera. Ser eu mesma Primavera...
Cansa-me o Negro da Noite.
Cansam-me ausências, solidões, vazios.
Cansam-me as palavras sem margens onde deslizo na longitudinal vereda do verbo. Cansa-me estar cansada de mim. Cansas-me tu, Mar... que não me banhas os pés ...cansados de te esperar. Cansas-me tu andorinha, esvoaçante, errante, no teu eterno esvoaçar, perdida para além do horizonte!
Vejo a ponte ... uma ponte para a outra margem - as margens aluviões da Lezíria ancantada.
A água corre agora no balde verde (dou-me conta agora)…
Tudo é verde nas minhas escolhas… Escolhas verdes, tais os olhos com que te olho, pela fenda das madrugadas.
Verdes!
Nada em mim amadurece, a não ser as rugas, os cabelos brancos … por dentro, o sangue, esse deve ter a cor verde das águas de todos os mares … Recordo um poema que escrevi ontem mesmo, inspirada nas palavras de outro poema …

 "Não adormeças verde à sombra de palavras rosa

nem de branco
procures frutos coloridos

com o círio da tua fantasia." (1)



 

 Mastiga rosas maceradas
No anil das noites
De branco mascaradas;
Devora lentamente,
Uma a uma, gotículas de palavras …
Que caladas falarão,
Contarão lendas de infindas horas.

Não, não adormeças verde
Nos seios da tua amada -
Que o Sol Nascente te implora
O brilho amarelo da albina madrugada,
No traçado antigo da estrada.

Não bebas o som multicor,
Que solto é rio, sem margens,
é Indomável Adamastor…
Traça nas palavras rotas
incandescentes, longas viagens...

"Não te encubras, esquece o escrito
e descobre-te no fôlego do inscrito…" (2)

 Dá voz ao vento que te veleja a alma
E sente a serenidade que em ti brota, raiz,
E que tombada no teu colo,
reconhecida, se acalma…

"Não adormeças verde
à sombra de palavras rosa …" (3)
 
Sim. Adormeci à sombra de palavras rosa e acordei verde, dentro de mim!!!!
 
(1),(2),(3) - Nilson Barcelli in http :/ nimbypolis.blogspot.com "
  




publicado por Mel de Carvalho às 14:31
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Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007
Eremita errante

(foto de Mel)

***

Mar, eremita errante ...

Assumes

a estranha aparência de Ser caçante .

Vagueias

na agitação de longas vagas,

de ti mesmo, solidárias, alheias ...

Monge misantropo, Cume de Dante ...

Lobo uivante, por entre dilatadas noites,

no vazio e no cio de redondas Luas Cheias...

Nos trilhos imprecisos, densos arvoredos,

Faunos e Medos ...

Flutuas.

No emaranhado

dos até então territórios fechados

(que ai vivias, enconcado de ti...).

Olho-te de frente,

Soltas o bafo morno e quente ...

O cheiro do forno ...

Vestes-te d'ardentes tons ... 

sons, seiva sulcos, urros da Terra.

E te matizas, mimetizas , noite e dia

em fragrâncias de maresia e brisa ...

Cheiro da Vida -  bálsamo inconfesso de fruta alada, proibida.

 

De atalaia, na orla da praia, armas cilada.

Capturas, estrangulas, sugas, devoras

a tua amada... a tua Fada,

(por quem sofres e choras...)

Devoras ...

Da pele à Alma...

(não sobra nada).

Insano, louco, predador felídeo ...

És a um só tempo, apaziguamento,

... pescador e caçador ...

e destemperamento ...

A um só momento!...  

Meu Rei, meu Senhor!

Na borda d’água , no ardil,

paciente, esperas mil Primaveras...

(que passe o peixe, ali ... ao teu alcance).

Cai o Sol Posto!

Olho o teu dorso

manchado de rosetas negras.

Olho-te,

enfrento-te, predador alado...

Tu és o Amor, és Mar,

disfarçado de Jaguar (e como ele, mimetizado ).

 

Afago-te,

na densa pelagem, em negra costa,

no dorso e nos flancos, Jaguar Melânico –

e, louca confessa, purificada, me dou na urgência

e na entrega, em queda ... milhões de pétalas de rosas ...

 

Sem faróis, me manténs e te manténs

assim, ocultos no âmago da negra mata ...

No lusco-fuco de um crepúsculo...

Sem alvorada ...

Assim... aquietada.

Felino malhado (molhado), amarelo avermelhado...

 

De mim te alimentas, sedenta,

em tropicais florestas...

Jaguar, sem igual – solitário, territorial!


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publicado por Mel de Carvalho às 20:00
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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007
Nas asas de um Vulcão "Teide"

"A matemática é a mais alta das ciências, o dom mais alto que os deuses deram
aos homens. Ela é mais poesia que a própria poesia." 

Arquimedes

(foto de Mel) - Teide

***

Engendrei-te, urgente,

Caravela náutila argonauta,

em incessante corrente de navegação,

no acasalar de águas bernardas dos nossos mares -

águas abismo de corpos hibernados, quase mortos.

Inventei-te na ausência, na dor e na sapiência...

No recobro.

Recatei-me, incandescida, envolta neste pretexto ...

de mil signos. Escondida ...

Vidas  guarnecidas em  filigranas sentidas.

Pintei-te nas cores mais destoante ... ardentes

de um incandescente fogo de Dantes.

Abeirei-me ... eras Vulcão! 

Naveguei-te  na  combinação 

dos  movimentos de rotação e translação

em espiral de Arquimedes e na quadratura da parábola...

Nesta incessante procura do equilíbrio dos planos ...

Inventei-te sempre a  vogar

à bolina nas asas do meu olhar

(e  nas palavras sem margens).

Eras coragem ...

Inventei-te porque me sentia

sem forças para suportar a solitária misantropia.

Engendrei-te poema e, na noite fuligem dos dias

uma volta voraz do Mar

afundou o meu sonho nas vagas do meu prantar .

Inventei-te para me reinventar a mim!


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publicado por Mel de Carvalho às 10:47
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
Valsa de Águas

(foto de Mel)
 ***
Noite serena.
Procuras e eu procuro no murmúrio breve de um poema
no silenciar das vagas - alinhadas as palavras -,
árias inaudíveis aos ouvidos dos deuses ventos.
No mutismo, a noite avança em nós.
É ausência e permanência...
E os corpos se buscam, se fundem,  
numa eterna dança,
em busca de afecto, num mundo
só nosso ... secreto!
Valsa de Águas ...
 Em que a postura correcta
é sermos nós mesmos, habitantes de silenciados poemas.
Em que a arquitectura nos impõe
a regra do fio de prumo - o nosso rumo...
No palco negro da vida,
buscas a Margarida. Olhas-me, profundo
do fundo meu olhar,
no imo tecido na matriz do verde-mar…
Sempre a dançar, nos teus abraços de luar...

Olho-te, no fascínio, perdida no negrume e no queixume dos teus olhos de menino...
- os fundos do meu mundo ... Mudo! Mar!

No enlevo - elevas e elevo o pescoço
 a formar um ângulo recto ... 
com o peito...
Envolves-me (que sou criança) num bailado secreto ...
Nesta dança, em segredo, voo agora no teu dorso...

Quedam-se nos nossos queixos – na ânsia e no desejo do consumar do beijo!

Melodia .... Harmonia, este aceitar de acertar do passo ...  
(só louco o coração, suplica o desalinho do compasso).  

A noite avança, rodopia e dança, no frio e no
rodopelo breve de aves a navegar ...  
Que assim somos, valsa de Lua e de Luar ...  
 

in "Sibilam Pedras na Encosta", pág. 17 



publicado por Mel de Carvalho às 17:14
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Domingo, 31 de Dezembro de 2006
Solta o beijo de eremita

 

"Espanta comigo a inquietação da demora, 

porque em ambos crepita, permanente, 

o saber que há mais ensejos 

que marés ou mareantes

 

de beijar os teus lábios de eremita."

 Nilson Barcelli in  http :/ /nimbypolis.blogspot.com

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(foto de Mel)

***

Solta o beijo

que se demora por entre a vaga solta
de um vento que sopra
no ventre do Mar das nossas bocas...
E que nos apela
e nos clama
nos rumores de lábios ausentes
(marinheiros e navegantes)
afogados em labaredas
longas de
loucas bocas de luar.
 
Solta o desejo
incontido
solta, logo, logo, o riso
- placas tectónicas em fremente movimento -,
no pulsar incessante do nosso corpo
eleva-o louco
eleva os braços
e deixa que com os meus, alongados,
sejam unos
no tocar o firmamento
 
Espanta comigo a inquietação da demora
que ambos nos reconhecemos por entre
o bafo quente das palavras
no desenhar dos traçados
d'asas da memória.
 
Solta as lavas.
Solta-as reminiscentes, no verde das águas
abalroadas. Caudal do beijo.
Sejam de nós um caminho a partilhar!
No verde-seara  deste  Mar …
 
Espanta comigo a inquietação da demora
por entre o fabular chispas de lenha, lareira acesa,
neste fulgor que nos habita
que crepita
no beijar dos teus lábios de eremita...
Seja esta uma chuva
providencial a banhar a árida terra bendita ...
 
Solta o beijo
que se demora por entre a vaga solta
no desenho desejo urgente da minha boca!
Mas sim, por favor ... solta!
***
 
(poema em comentário/dueto com Nilson Barcelli)

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publicado por Mel de Carvalho às 15:50
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
Toma-me o rosto

 

(foto de Mel)

****

Toma-me o rosto

Redondo de luar

No vale moreno das tuas frias mãos de mar

(que o Inverno da Vida, já em mim se anuncia)

Toma-me o rosto

Nas palmas sedentas das tuas mãos abertas

Para que nelas floresça em festa

O gérmen, no beijo da rosa de cetim.

Deixa que se quede

Por um instante, que seja,

Por um fragmento de segundo

O teu no meu olhar

- que de verde se alagaram há muito

todos os caminhos e as veredas do teu Mundo!

Verdes águas, aluviões de margens,

Sejam as lágrimas soltas por te amar!

E te juro, meu querido,

Que não permitirei jamais

Que de negro a Terra se enegreça

Na ausência de semente ou vegetação.

Toma-me o rosto, envolve-o na magia doce de um olhar.

Toma-me os dedos, entreabertos, desabrochados,

Em leque

E neles entrelaça os teus mais recônditos anseios e medos

Toma-me  os seios

Que tos ofereço, para te guardar, neste singelo cofre,

Em forma de concha de Mar (vem ...vem-te aninhar) …

E por favor, meu Mar, deixa-me formular

Um só desejo:

Que no primeiro segundo deste Ano a despertar

A minha boca se sele com o sabor do teu beijar

E que ambas, reencontradas, abrigadas,

Sejam de nós candeias velas deste mar a navegar

E que coladas, falem sem palavras, deste imenso bem-querer

Vaga verde-amor, vastidão sem fim…

E, acredita, meu amor, que jamais pediria o que quer que fosse para mim…

 

Toma-me o rosto

Redondo de luar

No vale moreno das tuas frias mãos de mar.

  


música: i wanna go home by michael buble
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publicado por Mel de Carvalho às 20:43
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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006
Borboleta errática

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(foto de Mel)

"Chegaste esgotada de mares

e de Natais navegados à deriva"

Nilson Barcelli

---

Tinhas a forma breve de um poema
asas de vento enfoladas p'la deriva
trazias colados aos teus passos
pós cansados de todos os ímpios caminhos
e como melodia, trazias apenas
os trinados frios
de pássaros enforcados de raiva nos seus ninhos...
Chegaste assim.
Bebi dos rios vagabundos
dos teus avermelhados olhos
lágrimas desmaiadas de pranto
suguei veias vagas no quebrado
desta praia. Sequei com o meu corpo
do teu, arrepios, suores e mágoas,
debiquei no desejo e no beijo,
a cola das tuas asas aladas de anjo...
na maciez serena
das palavras...
Sorris, finalmente apaziguada.
Olhas para montante ...
a percorrida estrada.
Olhas para mim
e...
dizes: O meu anjo existe, sim!!!
 

***

A todos quantos me têm acompanhado no meu voo errático de borboleta, aqui fica o meu muito obrigada! Um bem hajam!

Feliz Natal, replecto de Paz!


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publicado por Mel de Carvalho às 13:11
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006
Chamamento do Jaguar

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(foto de Mel)

***

Na noite, esta que nos une, nos agrega,

Oiço-te mar, ermitã errante e vagabundo…

Uivos dilacerantes,  agudos, fundos, reentrantes -

percorrem-me canais, artérias e veias,

em felinas Luas cheias …

Avanças, ocupando extensos areais,

territórios recônditos, infinitos …

Na força golfada aberta dos teus gritos.

Sinto a terra vacilar sobre os teus passos,

demarcando em mim todos os espaços…

Oiço-te, alongado ao grito em chamamento

felino, pungente, indomável fortaleza,

(re) conheço-te os sons, a rouca tosse,

o hálito, bafo acre salgado e quente...

Avanças ...

em forma d’ondas alterosas formas de montanhas -

som vibrado do corte de serras sobre a seca lenha…

Conheço-te nos errantes aulidos, a tua voz…

Indomável ... louco ... Desabrido ...

Sei-te o sentido …

Chama-se posse!

Que de mim, te apoderaste, da alma ao corpo,

animal uivante, num só rosnar e Jaguar, errante,

te enrolas e te mesclas e te colas num incessante

rosnar e na candura serena do miar.

Bicho  sexuado ... Jaguar … Mar em forma de animal.

Sem piedade, sem temor, com a leveza e a subtileza

de um condor, sobre a areia,

avanças.  Dela fazes o teu palco, o repasto, a lauta ceia,

Floresta tropical … e eu sereia,

oculta sob a concha ostra, camuflada,

tombada de cansaço na enrijecida areia

deixo que gotas pérolas lacrimejantes

deslizem no ritmo lento das tuas garras, sobre o meu ventre,

que te deseja e te consente e,

sejam elas a água doce com que, Oceano te lavas,

no estripar de mim, que a ti Mar-Jaguar

me ofereço assim.

***

(se pretender ouvir este clip, desligue a Música do Blog à sua esquerda, por favor).

 David Lanz - Desert Rain

 



publicado por Mel de Carvalho às 00:04
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006
Margarida, Sereia
 
 
 
 
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(foto de Mel)
 
***
Procuro dentro do verbo a  palavra acesa
Cavo dentro do código
um vento
um sopro
uma leve brisa
Esgoto o alfabeto e ...
não me encontro ...
Demando na matemática
na geometria
Desenho da hipérbole à  parábola
e ... de novo chamo a palavra ...
para te chamar em mim.
És Vento
Volatilizas a Alma
- que, a Alma lançada à corrente
é agora apenas fiapos de brisa,
multipétalas de uma Margarida -,
que a Alma, desliza, clama infinita,
penetra o azul cobalto da madrugada,
Sereia alada, noite encantada
perdida, nos teus braços, serenados,
Deus do Mar. Busca de si a essência
é eloquência, é de novo palavra … é verbo
é desejo quente, vulcão aberto,
registo de um corpo, intemporal.
Uivos em cio de um animal.
Alma… lançada à brisa
desliza
alquimista, equilibrada
na forma angular de um trapézio
Olhar topázio,
incandescente...
Sortilégio do vento.
O Mar, sente e consente
o afago. Deseja e beija
os seios hirtos da mulher
- sabor a Mel - fonte secreta da Vida.
Na auréola da praia, no recorte da areia,
em clarividente luar de Lua Cheia
requebram, bordam em espuma, plumas
Fantasia …
Deus dos Mares
uma Sereia, em forma de Margarida!
Fundidos, absortos, em desfolhada de si 
-  pétalas perfeitas, desejos.
Moldados a frio os corpos-barros,
na seiva e no sabores de orvalho
gotas de ostras-maresia …
Renasce o dia …
em sons de harpas-vagas ...
melodia!
 
***
Depois de deixar partes deste poema em comentários de Blogs... reformulei e deixo-o aqui ... numa versão mais Blue...
 

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publicado por Mel de Carvalho às 18:15
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Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006
Inscrevi-te na ilógica dos Deuses

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(foto de Mel)
***
Inscrevi-te na ilógica dos Deuses
Sem terem asas
Acreditei que vivias no ventre quente das madrugadas
que as raízes que sentia
vinham de dentro de ti, do teu epicentro e,
boas filhas a ti tornavam no gozo e no repouso.
Me confundi …
Acreditei
que os meus olhos cansados
encontrariam nos teus, pedaços do céu.
Eras a fruta adormecida, desejada
portal, ombreira da Vida...
Fruta doce e proíbida.
Fêmea alada procurei-te no
desdobrar da palavra, Deus dos Mares …
E, sem pudor, em entreguei a ti …
Vezes sem fim
No prazer de me desnudar em amor …
Virgem nas lides do mar, sem astrolábio sequer,
encetei circular viagem sobre o meu eixo
(rolado o seixo) num incessante e cadenciado
conjunto de manobras
sem consegui imprimir movimento ao navio
sem fazer a mareagem…
Num eterno marear - barco à tona
camada, fina película -, o meu coração alado
embaciou-se no sentido e no teu próprio brilho perdido,
E, tal bravo touro entontecido,
tu perdeste igualmente de ti mesmo, o sentido …
Mar …
Qual de nós o mais perdido?
 
 
 


publicado por Mel de Carvalho às 13:40
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
Acordou o rio
(foto de Mel)

***
Acordou o rio,
adormecido dentro dia.
Acordou, dentro de um corpo de vidro.
Solto, invade a trote a cirandeira noite,
alaga no galope margens e,
ainda criança, enceta derradeira dança.
É tango, é samba, é valsa,
é luta íntima contra a indiferença.
Acordou o rio, nu e frio
despenhado no cálice aberto da rasa madrugada.
Trazia a gala parada,
metamorfoseada, impiedosa derrocada.
 
Acordou o rio …
Trazia no caudal um incontido, brado
de corpo alado. Rio revolto, lava líquida -
pirotecnia, fogo posto … luar de Agosto.
 
Acordou o rio, estilhaço incontrolado,
de um caminho platinado e gasto.
Sem sentido!
 
Acordou o rio, incontido, transborda em várzeas
- não cabe dentro das margens -, que a água tem
a cor do sangue de desvirginadas donzelas…
(que o pintei a aguarelas …)
O rio têm agora tintas-cor dos trópicos ao Sol Pôr…
O cheiro da terra aguada, do temporal à enxurrada.
O rio, tem o odor matiz da terra, sonhos halos naufragados,
Sapos encantados … Unicórnios alados.
 
Acordou o rio, num corpo de vidro.
Acordou gelado e frio… que o rio que em mim
morou … acordou, abriu-se lentamente…
Acordou e chorou!


publicado por Mel de Carvalho às 12:17
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Sábado, 9 de Dezembro de 2006
Lentes desfocadas

 

 

(foto de Mel)

  

**

Um jogo de lentes desfocadas, faz a luz!

Neste espírito confuso e obtuso...

Espelho d’águas...

 

São lentes demoradas.

Em espaçadas revivescências.

Em alongadas e desfocadas reminiscências

Caleidoscópios de um tempo em que de mim

me escondi, voando apenas voos secretos -

Num corpo escondido na veste das próprias penas.

Apenas!

 

Quem sou? Quem fui?

Passo em revista searas de ventos...

Foco a imagem, no relógio-espuma das horas...

Oiço o murmurar das ondas... choram...

Choro e... Sinto que também choras...

 

Porquê este desalento,

este marear eternamente ao vento?

Estes relâmpagos que se acendem aqui,

no centro da Alma, tal espinhos cravados?

Dolentes, profundos, nesta Alma que se não queda,

que se não aquieta, Alma agitada e inquieta...

Nesta dor de saber não ter energia para a tua, iluminar...

e te dar, Paz, Amor ... Serenidade.

Minha doce estrela da tarde... Sinto-te no ar!

 

E estes sinos... A repicar,

a impulsionar o instinto peregrino...

De me não abandonar de vez ao meu destino,

De nascer e morrer... só!

De esticar os braços... me alongar ao infinito,

de ser eu própria a vaga, o pranto aflito...

 

A placidez que não chega,

nesta vontade de ter uma estrela

tal amêndoa... redonda, esborrachada e,

outra talvez, uma estrela louca, de cauda...

E, as duas... lá longe... unidas, tocando flauta...

 

Sim, estou louca... no desejo de beijar a tua boca!

Mas – sorrio – que faria todo o sentido que,

neste céu desluzido, se fizesse novo dia,

numa eterna sinfonia de estrelas – flautas...

Sim, estou louca... no desejo de beijar a tua boca!

 

Sim, estou louca, louca deste vazio, deste tremendo frio,

em que o meu Ser se encontra -

de não ter o teu corpo, sob as dobras da minha boca...

Ser Lua, sempre minguante, neste grito angustiante

De querer que amanheça... e, de morrer a cada vaga,

Nesta maré já vazante...

 

“Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza” – Ary dos Santos



publicado por Mel de Carvalho às 09:54
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
Poesia-Vida
(foto de Mel)
 
**
 
 

Quando a minha alma estava ferida,
o corpo ferido igualmente,
o Inverno se anunciava
inóspito, desabrigado, gelado,
- Antárctica de neves perenes...

Quando de mim todos os mares se ausentaram...
Todas as luas cheias se afogaram despenhadas
em imensos Oceanos...
Quando os afagos de uns olhos
onde repousava os meus olhos
se me fugiram - Sol...
Eu era agueiro, tromba de água
rio de montanha, veloz e frio...
Ai, nesse preciso momento...
Não chegou pessoa alguma.
Nem flores, nem Sóis,
nem sequer murmúrios marulhados de ondas...
Nem risos, sorrisos... esperança...

Quando dentro de mim
apenas habitava o vácuo e o vazio...
Quando nua, despida de mim própria,
avançava louca pela rua,
a busca de um amor maior, de uma paz permanente,
que de ausente, me tornava tão doente,
não encontrei mão amiga,
nem abraços, nem beijos, nem sequer quem me amparasse
quando, enjoada, me enrodilhava dentro do meu próprio
ventre...
e me despenhava no negro da rua...

Quando, nesta agonia, noite e dia, vagueava...
Pendulava na ponta de uma fraga...
perdida de mim, sem rumo, meio ou fim...
Não... não encontrei o carinho de abraços - os que pedia...
(tão magoada aos poucos sucumbia,
algemada no sentido de os receber...).
Morria no desalento... e nada acontecia...
Ai, nesse momento,
alguém com voz de vento bateu à porta...
Com medo abri...
Tinha forma imprecisa e hálito quente...
Tomou-me ali mesmo, nua, e fez-me sua...
Beijou-me as lágrimas, sorveu-me no beijo ardente parte da dor...
Secou-me com pontas asas aladas os tremores suores do
corpo...
Aninhou-se pelos poros da minha pele, mim a dentro
- talvez para sempre e lá habita -, (é hoje o meu diário
alimento).
Companheira de todas as horas, dia e noite, noite e dia...
Tem os tons da maresia, o negro da ventania, o brilho da
utopia...
SIM, Falo de ti POESIA...

Fizeste de mim esta criança,
que temerosa ainda... guiada pela tua sábia mão
avança, no traçado dos caminhos poéticos ou de prosa...
Eu, a tal, a deposta Rosa, vagueio agora amparada,
colada com a madrugada...
Eu, Rosa do Nada!!!
Poesia... Obrigada!
Amiga... Devolveste-me a vida!!!
___
In Sibilam Pedras na Encosta, de Mel de Carvalho, Ed. Corpos, 2007, págs. 58 e seguintes.
 


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publicado por Mel de Carvalho às 09:20
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006
Meditação
(foto de Mel)
**
Medito sobre as longas horas
em que o corpo
inerte, morto,
Se alonga na boca do vazio
de um tempo – desencontro.
Medito envolta no levante
espuma d' ondas
envoltas em hediondas
e fantasmagóricas roupagens,
- copas de árvores feridas…
Medito quando o corpo
busca a harmonia nas sombras
e encontra o esguio frio
das linhas embrulhadas, ocultas
no traçado alcantilado de fragas
abruptas…
Medito se sou foz, leito ou margem,
de um secreto rio
que corre voraz, longo ou lento,
nas linhas desenhadas no teu peito.
Medito
sob a bruxuleante e insípida luz
projectada a matiz entre o luar e o nevoeiro
- pavio da Vida…
E, meditando,
tremem-me os joelhos, frágeis juncos
de rio… Treme-me o corpo no frio…
E os pés nus se enterram
- no encontro com as rãs -,
nos lodos matinais de todas as manhãs e,
meditando me confundo...
E já nem sequer sei
se sou deste ou este é o meu Mundo!


publicado por Mel de Carvalho às 09:27
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