
(foto da Net)
***
É verdade, este blog chegou ao fim. Encerrou-se um ciclo, uma vontade de continuar, uma propósito.
Menos conhecido que o meu blog "Noite de Mel", passaram contudo por aqui muitos amigos a quem estou grata pela permanência, pelos comentários, pelos incentivos.
Alguns deles há muito que deixaram de "anónimos/virtuais". São hoje em dia companheiros de escrita, amigos fraternos.
Como todos sabemos, a vida nem sempre nos possibilita manter e dar continuidade ao que começamos. É o caso!
Encerrar este espaço foi um decisão dificil de tomar, acreditem!
Continuo, contudo, a esperar por quem me desejar ler e comentar, em
e
para além de que, e como muitos saberão, escrevo em vários sites de escrita, para os quais vos convido igualmente:
www.escritartes.com; www.luso-poemas.net ...
Maria Amélia de Carvalho (Mel)
nasceram túlipas abertas
envoltas em serpentes.
Híbridas, diferentes,
ergueram-se em abstractos
desenhando beijos e mimos no firmamento
em saltos supremos de trampolim.
Saltimbancos,
amortalharam a razão
no som estridente de um clarim
quando, cansados de si,
se metamorfosearam em sensibilidades
no clamor de um plasma e,
em leito atapetado d’erva ardente,
de pétalas rubras, suor e grossas lágrimas,
se amaram, perdidamente.
Dos subterrâneos da mais inútil solidão,
do casulo morno do relógio do tempo,
regressaram as raízes,
em meditação do fascínio ou do logro,
na amplitude d’asas de cetim,
ora amplas, abertas,
ora quietas, doloridas, amarguradas.
Na periferia da aurora boreal,
aqui e ali, no canto e na água,
os sons erguem-se e ecoam, dulcíssimos,
cristalinos,
assinalando um lugar secreto e clandestino,
e os voos são um jogo de “Pássaros de Fogo”*
***
(Autor da foto : Graça Loureiro)
****
Não existem palavras
quando a linguagem é muda
e apenas a voz da alma fala, melódica,
sustenida, em conchas esvaziadas.
Então, no ventre dos tempos, meu amado,
avançamos livres,
avançamos nus,
desbravando os medos do corpo, um a um,
em acordes vibrantes de fogo
num plano fumegante de lava e luz,
em vibrados de Sol.
Tomamos o rumo dos astros
e o horizonte abre-se-nos, fulgurante e vasto,
amaciando, nas sombras da tarde,
as cascas ressequidas de serôdias árvores.
E mais além, nas veias azuis da Lezíria,
nas fímbrias do rio,
tordos e rolas são velas hasteadas
num voo de fragatas à bolina …
E sob a nossa pele,
um reino desconhecido se explode virgem,
em plexo de sentidos,
de desejos incontidos,
num entrançamento de gestos circunflexos
em que as hastes dos salgueiros se dobram
se vergam e se fundem
à madre das águas.
***
Poema publicado em: Luso-poemas
Fugir, fugir de mim e deste alagadiço cárcere
onde decapito desejos e belíssimos sentimentos
no vento incerto povoado da distância,
emudecida no clamor dum só grito,
e dos pássaros que me cantam calados por dentro,
em cenóbios, claustrofóbicos conventos.
Fugir do verbo que permanente te chama, em pranto
algoz e farto, fazendo de cada onda, ondulado,
verde planalto,
e das grades frias desta noite agoniada,
desta noite a respirar saudade nos poros do novo dia,
a cada inoportuna madrugada.
Deixa que me parta e que não volte,
deixa que tombe na dor do desalento, na enseada
agasalhada em torrentes de mágoa e morte.
Deixa que me cubram a boca plúmbea
no manto de magnólias, orquídeas e açucenas.
Que as nuvens elevem mais alto que astros
as minhas magoadas, silenciadas penas.
E que, amado, deste promontório angulado
o meu corpo em labaredas de chamas encontre
em queda o Oceano nele colado.
Para sempre!
***
Publicado em: Luso-poemas
(foto de Mel)
(foto de Mel )
***
No azimute da memória a madrugada dorme
sem sono
sem sede
sem fome
na indolência vegetativa, faz-se silêncio,
faz-se ao silêncio,
no tempo de um verbo que não escrevi,
de um verso que não vivi,
conjugado do Passado ao Infinito,
vocalizado no estremecimento, no arrepio,
no encrespo do corpo,
aplanado em planos líquidos
de águas paradas no convexo do mundo
...no contraditório,
lá onde se espigam os olhares das jangadas
aporticadas da cidade
por entre frinchas sem asas,
sem flama. Em chamas.
Labaredas incendiadas no pez das próprias feridas.
Já é tarde. Muito tarde,
a bola de fogo já mergulhou circular
no bojo côncavo do meu mar.
Salgado.
Sem pauta, sem notas,
resvalo agora da arriba sem estribos nem arreios.
Deslizo, extinta, em planuras de memórias,
entoadas nos bicos alaranjados de mil gaivotas.
***
Poema publicado em: Luso-poemas; EscritaCriativa
Outros poemas da autora: www.noitedemel.blog.sapo.pt
(foto de Mel, ilha da Berlenga)
***
Acolho-me da noite ressaibada
onde dormi nua, casta, virgem e basta,
em bonomia, sob as tuas asas amplas de morcego.
Na madrugada do desassossego
abrigo-me hoje de um tempo
em que as escamas se elevavam perfiladas
de um mar arrepiado
em que, de um lado a vaga,
do outro o vento
e esta dor
e o desalento
e as lágrimas, perdidas,
roliças, gordas, profundas,
iguais ao mar, iguais a si… escorridas
nos olhos invisíveis dos meus dedos plácidos ...
Deste tempo em que o verde bolinado dos meus olhos
fulgurou feérico na noite dos teus olhos,
que logo assustados partiram, dúbios mareantes,
na incerteza e na vontade de ficar,
na tristeza dissimulada de zarpar.
Acolho-me da noite
no ressaibo de um balanço de berço,
numa rola de barco,
das tuas asas de morcego em pranto.
(E do meu pranto,
de te saber mar-chão, em sofrimento...)
De um tempo em que foste mar de calma
e as gaivotas se explodiram coralinas no remanso
das branquelas das água
e tudo era sonho,
e tudo não mais que utopia e ilusão.
Daqui, da proa do meu barco,
eras o tempo de um tempo que se navegava
aproado, ao meu tempo colado.
________________
Texto publicado em: Luso-Poemas
Mais poemas da autora: www.noitedemel.blogs.sapo.pt
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(foto de Mel, Forte de Sº João Baptista - Berlengas)
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Desperto de um sono de mil anos
com pálpebras cozidas com agulhas de saca
ao âmago virulento das palavras.
De quimeras embrulhadas em ventos e ciclones
no traçado de lonjuras secas de planos.
Acordo vinda do frio com os músculos hirtos
e os gestos quebradiços, corrompidos nos tojos
densos com que tecemos abraços de moluscos
apodrecidos por dentro de algibeiras.
Regurgito de um sonho verde, dormido à sombra
de penumbras farpadas a um mar de chumbo
e de vagas moribundas, sempre alteradas.
Espreguiço os sentidos à luz do novo dia,
purgo-me de ti,
bolino-me por dentro, no ressaibo e no revezo
do gosto e do pasto da noite da utopia.
Ressuscito por fim, no mastigo de rosas ácidas.
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Poema Publicado em: EscritaCriativa; Luso-Poemas
Mais poemas da autora: www.noitedemel.blogs.sapo.pt
(foto de Mel, Tenerife)
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O que te dei, o que dou, amado,
na boca nublada do silêncio,
não cabe num poema,
por mais forte, por mais denso…
Nem sequer no porão do mais espaçoso navio.
Não se amarra
Não se aporta
Esgueira-se lesto, bravio,
nos escombros ruidosos do vento
supurados na voz rouca, na voz baixa,
de nós, permanentes vagas intempestivas,
a varrer, de lés a lés, o areal da costa.
O que te dei, o que te dou, amado,
era o meu tempo – é o meu tempo,
inteiro,
Era o meu corpo – é o meu corpo,
inteiro;
Era sentimento – é sentimento,
inteiro.
Será quiçá um mar de sonhos,
um olhar virgem nas artes d’amar.
Agora que o teu barco ameaça zarpar,
ameaça partir extinto deste porto em que se abriga,
nesta hora desprotegida, inopinada,
em que nem a luz da Lua rodeia os meus braços,
em que apenas vislumbro um só raio ténue de Sol
a iluminar os meus passos, quando fatigados
se ecoam solitários no eco dos teus passos;
Nesta hora ambígua em que ameaças deixar vazia,
a leira sequiosa da minha vida,
ergo a palavra, faço dela rosário, terço, bandeira
e hino - neste clamor de te falar de amor,
de te falar de findas mágoas,
de te falar da fola hirta do mar,
de te lembrar que as marés, tal como nós,
estão sempre em processo, em recomeço...
Elevo a palavra
guiada às cegas nas espigas trémulas das lágrimas,
que mais não são, amado, que neste plano,
pórtico ilimitado de oceânicas águas.
Publicado em: Escrita Criativa
***
Mais poesia em www.noitedemel.blogs.sapo.pt
___________________
(foto de Mel, Peniche)
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Falou em mim um tempo nosso, exangue,
em que os silêncios se proviam
nos olhos rasos dos abraços.
Em que as ternuras eram rutilantes
Girassóis. Infindos, em busca de si,
em busca do Sol.
Falou-me a mó da pedra gasta d’alva,
nesta fome de ti, constante,
desequilibrante
aniquilante
incapacitante de todos os gestos,
de todos os passos,
de todos os insignificantes movimentos.
Falou-me a falésia arribada em espera.
Esta imensurável dor a latejar,
a purgar-se lenta,
a proclamar a condição humana
Da chama
Da submissão
Da fome do teu corpo, da tua mão.
Da sede
da carícia adivinhada, pressentida,
da carícia ousada, plena, retribuída.
Da falésia ali, falou-me louca, a onda -
oferta, aberta e generosa -,
num colo líquido d'oferenda, de dádiva plena.
Serena a onda … serena a Alma.
Falou em mim um tempo nosso.
Chamou por mim, a sua Rosa.
___
Publicado em: Escrita Criativa; Luso-Poemas
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.
Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me étera no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas ...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.
Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!
in "Sibilam Pedras na Encosta", pág. 15
Publicado inicialmente: Luso-poemas; PoesiaPortuguesa
(foto de Mel)
***
Escorre-te em mim, como se foras rio,
nas margens incontidas, alagadas, do meu ser.
Fluí na inclinação da luz de alma liquefeita,
a incendiar a voz improtelável da carne,
de sensualidade imatura e imperfeita.
Escorre-te em lava, sem medo, no anseio e no tremor.
Na ousadia que pressinto no rodapé da palavra.
Escorre-te em mim, tal lâmina d’agua,
sobre a terra sedenta do arejo na voz aguda da lavra.
Escorre-te em mim, cigarra desfalecida,
formiga concisa. Percorre-me nos teus dedos
húmidos de esperança. Percorre-me, na nudez
pálida de um bosque rumoroso. Desliza-me
o corpo a ondular, em cada vaga, em cada brisa
em cada volta de mar.
Na ancestral sabedoria, supérflua e transparente,
de nos sabermos iguais e tão diferentes.
Esgota-te em mim, amado,
convicto que sobre nós existem
nuvens a ofuscar o azul virgem do nosso mar!
***
Publicado em: RecantodasLetras, Luso-Poemas e EscritaCriativa
(foto de Mel)
**
Ouso desafiar o propósito da viagem
num voo audaz de pássaros afogueados
pintados a rubro no azul da pele do céu.
Ouso enfrentar o traçado pré-determinado
num compasso poético e apoteótico,
num aviamento triunfal,
no delírio epidémico e no proclamado êxtase
de um fogo lapidado nos recifes
gelados dos nossos comuns caminhos.
Nos baixios fortuitos e nos escolhos ocasionais
ouso enfrentar silhuetas dúbias reflectidas
nas sombras roucas de vozes projectadas
nos vitrais agora requebrados pela luz
de estrelas desmedidas
na certeza, meu amor,
de que existem rotas abrigadas
em búzios e em ostras ainda não desvirginadas.
Rotas só nossas.
Para nós e por nós traçadas!
Então, desafio-me na ousadia quase morta
Enfrento-me destemida no palco escarpado da vida
Enfrento bestas fustigadas em esporas
numa maquiavélica máquina de passivas horas.
Enfrento metástases, fístulas espiraladas,
chagas ululadas em ruídos sustenidos,
de soluços e sacaroses, açucares lentos,
na faminta sofreguidão de ternuras emancipadas,
de línguas penetradas na alma das salivas.
Ternuras escondidas e ressumadas nas palavras
que ainda não dizemos.
Dos gestos que não esboçámos.
Registos de que o corpo em segredo nos fala,
agasalhados lá no fundo, no convés, ao abrigo
das fúrias das marés.
Então, meu amado,
olho de novo o sonho aqui ao meu lado
neste teu quadro proclamado e
deixo que o amor renitente que nos percorre
e incendeia do corpo à alma, me conduza na vertigem,
no assombro e no delírio de um voo planado
sobre o teu voo de pássaro obstinado.
Porque num outro lado, em algum lado, te sinto
embalado na mesma toada adivinhada
de um mesmo sonho partilhado
em igual estado de desejo
de dar o corpo
de acasalar a alma!
Num selar o sonho com um infindo beijo.
(foto de Mel)
***
Canto-te esquiva, melancolia visionária
debruçada nos corpos de estrelas moribundas
e nos paralelepípedos das estradas embrulhadas.
Canto-te nos olhos verdes de mim, vestidos
d’ogivas incendiárias, anéis rubros dos pecados.
Canto-te nos gemidos sustenidos, ululados,
a povoar de cheiros a inodora atmosfera
na cegueira plácida e branca nas neves da alta serra.
Nas babas desnatadas das horas acatadas em espera.
Canto-te, Dulcineia, no mutismo chacoteado de um moinho
sem velas, navegado pelos ventos nórdicos dos Céus …
Num cântico longo e louco, do teu corpo seta insurrecta
aço cinzelado ou punhal, na minha carne cravado.
Erecta. Mastro, varal da vida.
Canto-te quando na madrugada, me rebolam
por dentro, ao ouvido fundo, os silêncios mais pesados.
(E os nossos lábios se colam de si mesmos distanciados.)
Neste sonho intangível em que a louca Lua se acasala na origem
com um astro contaminado. E ambos percorrem as veias do céu,
em nomadismos ciganos. Em que, caravelas sem mastros
(se) cruzam, marés, oceanos inclinados, em porões iluminados.
Fúlgidos, os cílios se beijam. Insanos, os corpos se amam,
cristas álacres, bocejos lentos. Desejos escorridos, no astrolábio
de flatos. E de novo do porão ao convés, uma e outra e outra vez,
a Lua é conselheira, entre os escombros dos ventos, brisas,
onde se matizam afagos, mimos, sorrisos ternurentos
e os remanescentes lamentos…
Canto-te esquiva, melancolia visionária …
**
Publicado in http://recantodasletras.uol.com.br/visua
(foto de Mel)
***
Não existem certezas absolutas no traçado impoluto
dos nossos cruzados caminhos; nem sequer experimentados
marinheiros, ousam adivinhar os imprevistos perigos de rotas...
Se até as claras águas travam lá nas nascentes
lutas maiores e interiores, antes de implodirem de gotas
lá no cimo cimeiro dos montes...
E de gotas logo fontes, e mais logo fumes riachos, ribeiros...
a comportar batelões ou navios ...
E as gotas florescentes são rosas, frondosos rios ...
a desaguar num mar, louco de se abraçar em correntes ardentes
de afagos secretos ... milenares meiguices, carinhos ...
E se o traçado reminiscente dos poeirentos caminhos da gente
tem a marca das raízes no calcorrear do pretérito...
E as pedras das calçadas, tem ainda coalhadas
as marcar ensanguentadas de batalhas. Crostas e cicatrizes...
E agora desenhadas, brilhos, colores da flor do sal,
rosáceas buganvílias e lilases rosmaninhos ...
**
Meu amor, escuta agora os risonhos trinados
e os chilreios povoados de príncipes passarinhos ...
Ouve e anota a lição dos seus gorjeios....
Atenta na linha esbatida das suas frágeis asas...
São ancestrais direcções, são estradas traçadas
na matriz d’águas... de muitos pelicanos, gaivotas ...
Olha o teu e o meu peito ... que as temos tatuadas ...
em linhas pré-cruzadas. O teu colo nos meus seios...
Nesta viagem que completámos, para nos encontrarmos
no sonho, girámos nós e a terra ... Em veios, silvados de
Amoras ... E, meu querido, eis agora chegada a hora.
Despe-me de espumas, veste-me de coisa nenhuma ...
Entrega-te sem reservas à audácia da descoberta.
Não silencies as palavras, abre-as fulvas, rubras.
Pétalas em cacho, em erupção, sobre a alma assedentada
da tua amada.
Planta em fio e em baba, plantios de beijos bocas.
Planta-os, nos mais altos dos teus e meus receios e,
nessa magia, nesse encanto, navega o verde olhar do
meu canto.
***
Publicado em: http://recantodasletras.uol.com.br/visua
Colado está agora o topázio Mar Egeu ao azul
do vasto Céu. Silencia a Alma, serena,
escuta apenas os rugidos erguidos - cânticos de Afrodite - ,
esplanados no lençol de verdes vagas.
Atenta nos inquietos roncos de Jeptuno -
das águas -, na ripagem, no beijo dulcíssimo d’areia.
Vê ao longe. Da babugem da espuma emerge um vulto
difuso ... Divindade, Mulher-Sereia ...
Seja eu Kronos antropófaga, devoradora um a um
a força diluviana
de todos os meus próprios filhos,
que ousarei desafiar na vulcânica lava intempestiva,
na fúria da espada ou no corte frio d’adaga,
o caudal destilado do Destino.
Serei Vestal, jovial Sacerdotisa, Guardiã esvoaçante
em argênteo Panteão de Gregos Deuses.
Que das vagas luminárias, tecerei colares, diademas,
adornos incandescentes, em líquidos beijos
d'eternos amantes.
Que por ti, por ti apenas, desenharei na espuma da ondas,
lonjura incessantes de poemas...
(foto de Mel)
***
Embocaste pela boca aberta do meu pranto,
num ponto preciso do estofo da maré. Marinheiro
reconhecido na arte de bolinar, navegaste o lamento
pungente dos meus olhos e neles colocaste uma a uma
Primulas, Violas, Begónias, num plantio desmedido
de boninas, de flores, na arte de replantar “Amores!”.
Lavas de lume emergiam da crosta incandescente.
Não temeste. Falavam de um tempo em que a Alma
em chaga, sem que disso tivesse dado alerta a meteorologia,
entrara abruptamente em erupção.
Destemido Marinheiro, buscaste na cana do leme, direcção.
Acreditaste que lá em baixo, na sua porta, o metal sulcaria
o pranto em mansas vagas derivadas. Aplanadas…
À carlinga fixaste o mastro onde içaste a bandeira da Paz.
**
É manhã!
A luz escorre agora. É leite derramado na Noite que morre.
Hoje eu sei que o que escrevo não mais é que o acordar
de um Sonho prematuramente adormecido no reponto da maré…
Fecho os olhos! Sob a claridade pálida da fugidia Lua,
a linfa ondula. Sobre a areia as gaivotas desenham-se
em orgânicas danças. Em espasmos, atingem o orgasmo.
De braços abertos encenam cânticos nupciais.
Tudo é bucólico, tudo é simbólico, no reino dos animais!
Navegaste o pranto dos meus olhos …
***
Poema publicado em: http://recantodasletras.uol.com.br/visua
(foto de Mel)
***
(foto de Mel)
***
Cheguei a ti de asas abertas, soltas ...
Emergi do ventre pálido d’águas
por dentro de sons agudos d’ alcateias.
Vozes dilaceradas, revoltas.
Emergi e em oráculo me consagrei a ti
assim, espuma,
nua de mim, serena,
vestida apenas de silabas de poemas.
Ofereci-te o tecido do meu corpo
para que fizesses dele
palco
em que, num único acto,
Dramaturgo, Ensaísta, Actor,
elevasses o Sagrado Cálice, Elixir do Amor ,
ao extremo,
ao Planalto mais alto,
num grito de êxtase solto,
sentido para lá do Monte Olimpo.
Submergi Semideusa, revolta dentro de mim
e emergi Afrodite,
Deusa dos Mares e me ofereci a ti!
***
Música que sugiro: http://www.esnips.com/doc/1d6ad1b3-d3b3-4
"... não existem verdades sagradas, todas as asserções devem ser cuidadosamente examinadas com espírito crítico, os argumentos de autoridade não têm valor ..."
Cosmos, Carl Sagan.
Quando no meu Mar marés altas de anunciam,
num fluxo periódico, sistemático e repetido -
na atracção Universal de corpos celestiais -,
e as águas se elevam e já são braços,
e logo níveas asas liquefeitas,
no esvoaçar incessante de gaivotas,
bucam-se margens, tal amarras.
E do seu centro, abismo, mar imenso, paul escuro,
uma claridade se alteia,
não tenho mais certezas, nem sagradas verdades,
que do imo do verdes das águas, refulgente,
um coração explode, bate desmedido, sente.
E contra forcas centrípetas faz de leme
e do frágil sonho o seu remo.
E de cada instante de ausência
onde não encontra a placidez dum sorriso cruzado,
na latitude do seu próprio sorriso,
tece redes, rosáceas de palavras,
estas que depois vem solitário lançar ao Mar.
Se de Marés Altas se espraia na urgência
de ver lagos planos a planar
por cima de revolto Oceano
é nas poças de marés, na maré vaza,
que encontra de si, o seu próprio sustento.
(Que é nas depressões o seu resídual acervo)
E numa luta continuada entre ti, Geia, Terra pesada
e a própria a negra Lua – num binário sempre em rotação–
despontam as imensas massas de águas,
tal corcundas,
violentas vagas, marés prenhes e cheias.
E no estofo, reponto de maré,
procura a Alma o equilíbrio e se detêm
em incessante demanda, nem que seja
da maré de mais pequena amplitude –
a célebre Maré da Quadratura.[1]
___
[1] Quadratura: O sol e a lua formam ângulo de 90º graus
Mar
(foto de Mel)
***
Entalhemos de imediato, letras verdes
sobre o azul-cinza do firmamento, bravos mares d’ ondas.
Tal corsários ou piratas,
em busca de (des)ordenados mapas,
voguemos num rebusco traçado e convulsivo.
Avancemos sem mais delongas, dentro de espirais de sombras,
sobre salinas de lágrimas e na densa popa das iras.
Espeólogos iniciantes, façamos então de cada vaga,
um pontão, uma varanda, uma barcaça
ou agulhado passadiço,
elevado, açulado, sobre desmesurado Oceano.
Façamos deste lugar, com o Sol nascente a brilhar
o inicial reduto (semente de um novo fruto),
donde partamos na ousadia de por dentro velejar.
Sejamos nós mareantes,
de um barco sempre a zarpar;
Sejamos nós nautas, joviais embarcadiços,
num Sonho de se encontrar e,
de mãos acasaladas, procuremos sem receios
os naturais abismos, algares secretos de nós.
- A ilha dos Enleios.
Procuremos a nossa escora,
(tanto que a Alma chora ...)
no centro de cavidades rochosas, ancestrais,
de rosas desenhadas em lapas horizontais.
Mergulhemos
em subterrâneos rios, no vácuo e no abismo
e no magnetismo
de mil cavernas de poemas.
Avancemos, no palmilhar de milenares Estalagmites
e no deslumbre de rosáceas Estalactites -
milhões de gotas, redondas e soltas
de um abobado tecto (o céu de um alfabeto)...
Sejamos nesta viagem,
por dentro dum umbral aberto, espeólogos viajantes.
Com salivadas bocas - híbridas, coalascentes- ,
adensadas no magnetismo-desejo de se beijar,
sulquemos magnânimos sentidos e,
finalmente, achados de tão perdidos,
domemos Adamastores de todos os cavados mares.
****
Música de sugiro: Sergei Rachmaninov - Prelude in C sharp minor, Op. 3, No. 2.mp3
(foto de Mel)
****
***
Nota: Parte deste poema foi deixado por mim, como comentário no blog http://heartpierrot.blogspot.com/2007/01/i
(foto de Mel)
No bastidor crivo d’um tempo aberto,
em certos momentos,
o verbo ponteia a ponto incerto
a cambraia rósea, velamento,
pele do corpo.
Em certos momentos suponho
que não existo…
Que dentro de mim apenas
voluteia aragem, brisa, inanidade …
Que sem o toque pressagiado do teu sobre o meu corpo,
sou Pégaso sem início meio ou fim – precipício -,
sem forma, nem idade.
Sou lanugem mansa,
nata esvoaçante, saliva salgada,
adensada
aberta.
Bagugem, espumada na crista
D’uma onda desordenada.
Redonda …
Salinada …
Sempre inacabada.
Sinto o frio. Gélido, percorre veias em lava.
Sinto-me imensa de tão pequena.
E neste estado me questiono sobre a
razão de constante turbulência.
Oiço Strauss, danço a valsa,
descalça, sobre a areia …
Avanço e tropeço; num ciclo de eternos recomeços.
Um jogo de sombra e luzes …
a água principia e regressa em alcatruzes ao colo
refúgio do meu rosto.
E o Sol se despenha em inexplicáveis contornos,
no manto pálido de um semblante –
num composto de encobertos Luares de Agosto.
Espero-te. Sei que viajas, cavaleiro andante,
dentro duma bolha efervescente de palavras,
vindo de um Mundo próprio – aquele
em que me abraças, me desmanchas as tranças
me diademas em metáforas de poemas…
Me despes e me vestes com a tua pele.
Apenas.
E me recobres de rosáceas rosas de Luz.
E teces sobre o meu corpo - tensado, no ardor
de milhões de vogais salivadas, cristalizas,
no bastidor - bordaduras sagradas,
loas de amor…
Em certas manhãs de Outono
o cheiro maduro da fruta e o vinho mosto
escorrem na garganta aberta do teu rosto.
E os pássaros esbatem-se de asas abertas
Sobre a planície bravia. Incerta …
Em certas manhãs de Outono
destemperados os Oceanos esgotam-se
em rios aplainados - alfabetos de palavras
no calafrio de noites sem sonhos nem sono …
Vazias... Frias!
Vazio,
o corpo retém apenas do sangue à lava
e o verde incandescente do prado ao fim da tarde.
A Terra borboleteia, revoluteia …
É pião de canalha; é grito ensandecido, desabrido.
Tecido - Água sobre desfiladeiro aberto. Abetos …
de afilada caruma penetram os seios tugidos da Vida!
***
(poema deixado em comentários do blog: http://blog.comunidades.net/rimbaud/inde
(foto de Mel)
(foto de Mel)
***
Sigo os teus passos
no desenho traçado da vaga sobre a areia.
Sigo-me, docilmente
na amplitude entre a maré vasa e a maré-cheia...
És Terra e Mar – és lastro de Barco e és arado.
Ferro e Fogo, a navegar nas asas de um olhar.
Sigo-te e te digo:
Busca dentro dos meus olhos, a acendalha,
a inicial luminosidade,
o rastilho da cegueira na noite cirandeira.
Lavra-me a Alma, profundamente, por dentro,
soltando dela leiras, alfobres
no estoque de beijos abertos e lentos.
Lavra-me a alma, no corte de cortar as vagas
semeia nela, sementes – diamantes e pérolas
de Paz.
Sulca-me o corpo, na busca do teu privativo
alimento. Retalha-o, sem medo p’la aço
do teu afundamento. Batel, em constante movimento.
Na eterna arte de bem esgrimir, em toda a parte.
Busquemo-nos, vaga e barco. No tacto.
Busquemos planaltos, campinas, descampados,
verdes prados e comunguemos em altar
com a Natureza, na harmonia de certos
dela apenas e só uma parcela.
Sigo os teus passos
no desenho traçado da vaga sobre a areia.
(foto de Mel)
***
Quando nada do que fui aqui restar
o Sol declinará cadavérico sobre a praia
num abraço de areia doirada.
Pronunciará, lentamente na sua ritmada cadência,
por mim, no marulhar, tal onda ordenada,
em cada vaga, uma a uma, as vogais
chagas abertas, feridas incendidas de uma vida
de menina, de mulher, de uma Fada ...
O Sol .... será da espuma alva - do que restar do meu corpo -,
o tear, o altar e o tumular lençol ...
Berlengas (gaivota) - (foto de Mel)
"A boca, onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar."
Eugénio de Andrade
Existem momentos em que me inquiro sobre o verdadeiro rumo das aves! Voar? Ou apenas existem para que nos questionemos sobre a fragilidade da nossa própria existência? De comuns mortais almejando sulcar o anil veludo dos céus? Se nada temos por certo senão o facto de que chegámos vindos de um espaço escuro, de um túnel de carne e que a luz do dia nos acolheu e nos disse: - Existe!!!!
Existimos. E nesta caminhada buscamos o eterno Graal Sagrado. A taça de cicuta em que nos afundamos, insanos. Nesta busca, soltamos o animal que em nós habita e que, não raras vezes, nos impede de raciocinar.
Em boa verdade coabita em nós a dualidade sermos racionais - pretendermos racionalizar tudo - e não obstante, sermos animais e como tal, reagirmos de forma instintiva.
Em momentos de tensão somos animais. Todo o nosso sistema metabólico se programa para o ataque ou para a fuga... Fugir... Voar... Voar alto, mais alto, voar ao infinito e do alto, soltar o grito...
Não, hoje não quero racionalizar ... Quero apenas ser ave e voar. Como tu gaivota, que insistes em não abandonar este espaço-terraço, virado a Poente. Olho-te com os olhos líquidos da madrugada. Olho-te com estes olhos de criança, no matiz topázio do verde-mar. (Continuo sempre a sonhar...)
Desfoco... já não te vejo, Gaivota ... Apenas um vulto difuso se projecta contra o Poente... Apenas...
A alma, essa, atracou nas tuas asas e sulca as veias do céu... "espera o ardor do vento para ser ave, e cantar." 1
Recordo Eugénio... Dentro de mim borbulham as palavras sem bocas, essas que falam de bocas sem palavras...
Desavisadas, as palavras, sopram as nuvens assentes sobre os meus cabelos... num redopelo.
São vento... Despenteado o pensamento, liberta-se de amarras e voa, alado, acalentado nos braços alísios de um tempo. Voa... Voa...
Não, não me digas nada. Que a noite lisa, pura e limpa, borda agora o negro da estrada. Deixa que o tempo se esqueça de nós. Que as horas, de cansadas, adormeçam sentadas ali na amurada. Deixa que a lua se olhe nos espelhos mil vezes reflectidos, dos meus e dos teus sentidos na nudez imensa das ondas repetidas, ordenadas pela gravidade das estrelas e dos cometas. Pela urgência da gravítica atracção dos corpos.
Não, não digas nada, que cansadas estão as bocas de mil palavras. Mascaradas. Disfarçadas de aves sem asas.
Toma-me a alma, nesta noite dos dias, e diz-me sem palavras que sou a tua amada.
Enfeita-me os cabelos de astros, entrelaça-os em grossas tranças, como quando era criança. Douradas. Da cor da areia da praia…
Conta-me de ti, dos teus sonhos, dos teus medos, dos teus desejos. Conta-mo na cadência de cada onda tombando, ininterruptamente. De trás para a frente e no reverso, na maré vaza ou maré cheia… Melopeia … Sem palavras.
Conta-mo num lampejo. Do teu olhar, fulgor … Esse que adivinho, existir, quando ausente de mim, olho as estrelas equiparadas às asas de uma gaivota projectadas no fundo de um céu azul. Nesta orla de mar.
E, menina do Mar, acasalo com ela, os sonhos de navegar … sempre a planar.
E de igual modo, projectada me vejo no verde esmeralda do mar … E no rosáceo das rochas desta ilha tão antiga ou, quando do topo do monte, situado a jusante, vejo o verde prado constante … a ondular e as árvores de tão sozinhas num perpétuo varejar.Tombadas até ao chão no varejo do vento insano. Choram as hastes partidas, arrancadas assim à florescência da Vida … Quando a semente brota do chão o fruto tomba na concavidade da minha mão.
Nesse momento sei que existes e te busco na perfeição de um mundo (re)construído. Para te amar. Na melodia do piar de mil aves do mar, das ondas incessantes a marulhar, nos cheiros matizes de sal e pinheiro. No negro-verde de densas florestas povoadas de Druidas e de Fadas.
Não, não digas nada. Deixa as nossas bocas coladas, que seladas, falarão mais que mil palavras…
1) Eugénio de Andrade
(foto de Mel)
***
Bolha d'água!
Astronauta, deambulo
sem rumo, na noite sem sentido.
Que esmagado, projectado no Eco infindo,
no azul restolho de secas folhas,
o Sonho se esbate na aba alva da madrugada.
Lentamente,
nas páginas do folheadas de um Livro chamado Tempo...
- folhoso, impresso, letra a letra, signo a signo
em perpétuas metáforas matemáticas -,
nas somas somadas de todas as horas
que passam, escorrem fio, ampulheta, sem destino...
Onde se encontram assentados
todos os deificados quartis segundos
das horas desdobradas.
Atómicas... atónitas.
Folhas tingidas de vermelho coral da Vida!
Bolha d’água,
escorrida, na cor da Paixão. Subterrâneos veios,
lençóis friáticos, nos tons topázio de sangue e cinza. Negros.
Ceceias-me a Alma,
na primordial centelha, provinda da madrugada ferida.
Entras em mim, no dobrar pregas, saias da noite;
Camisas de varas apertadas,
estranguladas vestes das alvoradas e no
fiar dos negros dias.
Sem ti!
Nada mais sou que bolha d’agua baqueada.
"Não adormeças verde à sombra de palavras rosa
nem de branco
procures frutos coloridos
com o círio da tua fantasia." (1)
Mastiga rosas maceradas
No anil das noites
De branco mascaradas;
Devora lentamente,
Uma a uma, gotículas de palavras …
Que caladas falarão,
Contarão lendas de infindas horas.
Não, não adormeças verde
Nos seios da tua amada -
Que o Sol Nascente te implora
O brilho amarelo da albina madrugada,
No traçado antigo da estrada.
Não bebas o som multicor,
Que solto é rio, sem margens,
é Indomável Adamastor…
Traça nas palavras rotas
incandescentes, longas viagens...
(foto de Mel)
***
Mar, eremita errante ...
Assumes
a estranha aparência de Ser caçante .
Vagueias
na agitação de longas vagas,
de ti mesmo, solidárias, alheias ...
Monge misantropo, Cume de Dante ...
Lobo uivante, por entre dilatadas noites,
no vazio e no cio de redondas Luas Cheias...
Nos trilhos imprecisos, densos arvoredos,
Faunos e Medos ...
Flutuas.
No emaranhado
dos até então territórios fechados
(que ai vivias, enconcado de ti...).
Olho-te de frente,
Soltas o bafo morno e quente ...
O cheiro do forno ...
Vestes-te d'ardentes tons ...
sons, seiva sulcos, urros da Terra.
E te matizas, mimetizas , noite e dia
em fragrâncias de maresia e brisa ...
Cheiro da Vida - bálsamo inconfesso de fruta alada, proibida.
De atalaia, na orla da praia, armas cilada.
Capturas, estrangulas, sugas, devoras
a tua amada... a tua Fada,
(por quem sofres e choras...)
Devoras ...
Da pele à Alma...
(não sobra nada).
Insano, louco, predador felídeo ...
És a um só tempo, apaziguamento,
... pescador e caçador ...
e destemperamento ...
A um só momento!...
Meu Rei, meu Senhor!
Na borda d’água , no ardil,
paciente, esperas mil Primaveras...
(que passe o peixe, ali ... ao teu alcance).
Cai o Sol Posto!
Olho o teu dorso
manchado de rosetas negras.
Olho-te,
enfrento-te, predador alado...
Tu és o Amor, és Mar,
disfarçado de Jaguar (e como ele, mimetizado ).
Afago-te,
na densa pelagem, em negra costa,
no dorso e nos flancos, Jaguar Melânico –
e, louca confessa, purificada, me dou na urgência
e na entrega, em queda ... milhões de pétalas de rosas ...
Sem faróis, me manténs e te manténs
assim, ocultos no âmago da negra mata ...
No lusco-fuco de um crepúsculo...
Sem alvorada ...
Assim... aquietada.
Felino malhado (molhado), amarelo avermelhado...
De mim te alimentas, sedenta,
em tropicais florestas...
Jaguar, sem igual – solitário, territorial!
"A matemática é a mais alta das ciências, o dom mais alto que os deuses deram
aos homens. Ela é mais poesia que a própria poesia."
Arquimedes
(foto de Mel) - Teide
***
Engendrei-te, urgente,
Caravela náutila argonauta,
em incessante corrente de navegação,
no acasalar de águas bernardas dos nossos mares -
águas abismo de corpos hibernados, quase mortos.
Inventei-te na ausência, na dor e na sapiência...
No recobro.
Recatei-me, incandescida, envolta neste pretexto ...
de mil signos. Escondida ...
Vidas guarnecidas em filigranas sentidas.
Pintei-te nas cores mais destoante ... ardentes
de um incandescente fogo de Dantes.
Abeirei-me ... eras Vulcão!
Naveguei-te na combinação
dos movimentos de rotação e translação
em espiral de Arquimedes e na quadratura da parábola...
Nesta incessante procura do equilíbrio dos planos ...
Inventei-te sempre a vogar
à bolina nas asas do meu olhar
(e nas palavras sem margens).
Eras coragem ...
Inventei-te porque me sentia
sem forças para suportar a solitária misantropia.
Engendrei-te poema e, na noite fuligem dos dias
uma volta voraz do Mar
afundou o meu sonho nas vagas do meu prantar .
Inventei-te para me reinventar a mim!
(foto de Mel)
***
Noite serena.
Procuras e eu procuro no murmúrio breve de um poema
no silenciar das vagas - alinhadas as palavras -,
árias inaudíveis aos ouvidos dos deuses ventos.
No mutismo, a noite avança em nós.
É ausência e permanência...
E os corpos se buscam, se fundem,
numa eterna dança,
em busca de afecto, num mundo
só nosso ... secreto!
Valsa de Águas ...
Em que a postura correcta
é sermos nós mesmos, habitantes de silenciados poemas.
Em que a arquitectura nos impõe
a regra do fio de prumo - o nosso rumo...
No palco negro da vida,
buscas a Margarida. Olhas-me, profundo
do fundo meu olhar,
no imo tecido na matriz do verde-mar…
Sempre a dançar, nos teus abraços de luar...
Olho-te, no fascínio, perdida no negrume e no queixume dos teus olhos de menino...
- os fundos do meu mundo ... Mudo! Mar!
No enlevo - elevas e elevo o pescoço
a formar um ângulo recto ...
com o peito...
Envolves-me (que sou criança) num bailado secreto ...
Nesta dança, em segredo, voo agora no teu dorso...
Quedam-se nos nossos queixos – na ânsia e no desejo do consumar do beijo!
Melodia .... Harmonia, este aceitar de acertar do passo ...
(só louco o coração, suplica o desalinho do compasso).
A noite avança, rodopia e dança, no frio e no
rodopelo breve de aves a navegar ...
Que assim somos, valsa de Lua e de Luar ...
in "Sibilam Pedras na Encosta", pág. 17
"Espanta comigo a inquietação da demora,
porque em ambos crepita, permanente,
o saber que há mais ensejos
que marés ou mareantes
Nilson Barcelli in http :/ /nimbypolis.blogspot.com
(foto de Mel)
***
Solta o beijo
que se demora por entre a vaga solta(foto de Mel)
****
Toma-me o rosto
Redondo de luar
No vale moreno das tuas frias mãos de mar
(que o Inverno da Vida, já em mim se anuncia)
Toma-me o rosto
Nas palmas sedentas das tuas mãos abertas
Para que nelas floresça em festa
O gérmen, no beijo da rosa de cetim.
Deixa que se quede
Por um instante, que seja,
Por um fragmento de segundo
O teu no meu olhar
- que de verde se alagaram há muito
todos os caminhos e as veredas do teu Mundo!
Verdes águas, aluviões de margens,
Sejam as lágrimas soltas por te amar!
E te juro, meu querido,
Que não permitirei jamais
Que de negro a Terra se enegreça
Na ausência de semente ou vegetação.
Toma-me o rosto, envolve-o na magia doce de um olhar.
Toma-me os dedos, entreabertos, desabrochados,
Em leque
E neles entrelaça os teus mais recônditos anseios e medos
Toma-me os seios
Que tos ofereço, para te guardar, neste singelo cofre,
Em forma de concha de Mar (vem ...vem-te aninhar) …
E por favor, meu Mar, deixa-me formular
Um só desejo:
Que no primeiro segundo deste Ano a despertar
A minha boca se sele com o sabor do teu beijar
E que ambas, reencontradas, abrigadas,
Sejam de nós candeias velas deste mar a navegar
E que coladas, falem sem palavras, deste imenso bem-querer
Vaga verde-amor, vastidão sem fim…
E, acredita, meu amor, que jamais pediria o que quer que fosse para mim…
Toma-me o rosto
Redondo de luar
No vale moreno das tuas frias mãos de mar.
(foto de Mel)
"Chegaste esgotada de mares
e de Natais navegados à deriva"
Nilson Barcelli
---
***
A todos quantos me têm acompanhado no meu voo errático de borboleta, aqui fica o meu muito obrigada! Um bem hajam!
Feliz Natal, replecto de Paz!
(foto de Mel)
***
Na noite, esta que nos une, nos agrega,
Oiço-te mar, ermitã errante e vagabundo…
Uivos dilacerantes, agudos, fundos, reentrantes -
percorrem-me canais, artérias e veias,
em felinas Luas cheias …
Avanças, ocupando extensos areais,
territórios recônditos, infinitos …
Na força golfada aberta dos teus gritos.
Sinto a terra vacilar sobre os teus passos,
demarcando em mim todos os espaços…
Oiço-te, alongado ao grito em chamamento
felino, pungente, indomável fortaleza,
(re) conheço-te os sons, a rouca tosse,
o hálito, bafo acre salgado e quente...
Avanças ...
em forma d’ondas alterosas formas de montanhas -
som vibrado do corte de serras sobre a seca lenha…
Conheço-te nos errantes aulidos, a tua voz…
Indomável ... louco ... Desabrido ...
Sei-te o sentido …
Chama-se posse!
Que de mim, te apoderaste, da alma ao corpo,
animal uivante, num só rosnar e Jaguar, errante,
te enrolas e te mesclas e te colas num incessante
rosnar e na candura serena do miar.
Bicho sexuado ... Jaguar … Mar em forma de animal.
Sem piedade, sem temor, com a leveza e a subtileza
de um condor, sobre a areia,
avanças. Dela fazes o teu palco, o repasto, a lauta ceia,
Floresta tropical … e eu sereia,
oculta sob a concha ostra, camuflada,
tombada de cansaço na enrijecida areia
deixo que gotas pérolas lacrimejantes
deslizem no ritmo lento das tuas garras, sobre o meu ventre,
que te deseja e te consente e,
sejam elas a água doce com que, Oceano te lavas,
no estripar de mim, que a ti Mar-Jaguar
me ofereço assim.
***
(se pretender ouvir este clip, desligue a Música do Blog à sua esquerda, por favor).
David Lanz - Desert Rain
(foto de Mel)
**
Um jogo de lentes desfocadas, faz a luz!
Neste espírito confuso e obtuso...
Espelho d’águas...
São lentes demoradas.
Em espaçadas revivescências.
Em alongadas e desfocadas reminiscências
Caleidoscópios de um tempo em que de mim
me escondi, voando apenas voos secretos -
Num corpo escondido na veste das próprias penas.
Apenas!
Quem sou? Quem fui?
Passo em revista searas de ventos...
Foco a imagem, no relógio-espuma das horas...
Oiço o murmurar das ondas... choram...
Choro e... Sinto que também choras...
Porquê este desalento,
este marear eternamente ao vento?
Estes relâmpagos que se acendem aqui,
no centro da Alma, tal espinhos cravados?
Dolentes, profundos, nesta Alma que se não queda,
que se não aquieta, Alma agitada e inquieta...
Nesta dor de saber não ter energia para a tua, iluminar...
e te dar, Paz, Amor ... Serenidade.
Minha doce estrela da tarde... Sinto-te no ar!
E estes sinos... A repicar,
a impulsionar o instinto peregrino...
De me não abandonar de vez ao meu destino,
De nascer e morrer... só!
De esticar os braços... me alongar ao infinito,
de ser eu própria a vaga, o pranto aflito...
A placidez que não chega,
nesta vontade de ter uma estrela
tal amêndoa... redonda, esborrachada e,
outra talvez, uma estrela louca, de cauda...
E, as duas... lá longe... unidas, tocando flauta...
Sim, estou louca... no desejo de beijar a tua boca!
Mas – sorrio – que faria todo o sentido que,
neste céu desluzido, se fizesse novo dia,
numa eterna sinfonia de estrelas – flautas...
Sim, estou louca... no desejo de beijar a tua boca!
Sim, estou louca, louca deste vazio, deste tremendo frio,
em que o meu Ser se encontra -
de não ter o teu corpo, sob as dobras da minha boca...
Ser Lua, sempre minguante, neste grito angustiante
De querer que amanheça... e, de morrer a cada vaga,
Nesta maré já vazante...
“Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza” – Ary dos Santos
Quando a minha alma estava ferida,
o corpo ferido igualmente,
o Inverno se anunciava
inóspito, desabrigado, gelado,
- Antárctica de neves perenes...
Quando de mim todos os mares se ausentaram...
Todas as luas cheias se afogaram despenhadas
em imensos Oceanos...
Quando os afagos de uns olhos
onde repousava os meus olhos
se me fugiram - Sol...
Eu era agueiro, tromba de água
rio de montanha, veloz e frio...
Ai, nesse preciso momento...
Não chegou pessoa alguma.
Nem flores, nem Sóis,
nem sequer murmúrios marulhados de ondas...
Nem risos, sorrisos... esperança...
Quando dentro de mim
apenas habitava o vácuo e o vazio...
Quando nua, despida de mim própria,
avançava louca pela rua,
a busca de um amor maior, de uma paz permanente,
que de ausente, me tornava tão doente,
não encontrei mão amiga,
nem abraços, nem beijos, nem sequer quem me amparasse
quando, enjoada, me enrodilhava dentro do meu próprio
ventre...
e me despenhava no negro da rua...
Quando, nesta agonia, noite e dia, vagueava...
Pendulava na ponta de uma fraga...
perdida de mim, sem rumo, meio ou fim...
Não... não encontrei o carinho de abraços - os que pedia...
(tão magoada aos poucos sucumbia,
algemada no sentido de os receber...).
Morria no desalento... e nada acontecia...
Ai, nesse momento,
alguém com voz de vento bateu à porta...
Com medo abri...
Tinha forma imprecisa e hálito quente...
Tomou-me ali mesmo, nua, e fez-me sua...
Beijou-me as lágrimas, sorveu-me no beijo ardente parte da dor...
Secou-me com pontas asas aladas os tremores suores do
corpo...
Aninhou-se pelos poros da minha pele, mim a dentro
- talvez para sempre e lá habita -, (é hoje o meu diário
alimento).
Companheira de todas as horas, dia e noite, noite e dia...
Tem os tons da maresia, o negro da ventania, o brilho da
utopia...
SIM, Falo de ti POESIA...
Fizeste de mim esta criança,
que temerosa ainda... guiada pela tua sábia mão
avança, no traçado dos caminhos poéticos ou de prosa...
Eu, a tal, a deposta Rosa, vagueio agora amparada,
colada com a madrugada...
Eu, Rosa do Nada!!!
Poesia... Obrigada!
Amiga... Devolveste-me a vida!!!
___
In Sibilam Pedras na Encosta, de Mel de Carvalho, Ed. Corpos, 2007, págs. 58 e seguintes.
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